23 abril 2012

[a tua boca]

Toco a tua boca com um dedo, toco o contorno da tua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se, pela primeira vez, a tua boca entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que minha mão escolheu e desenha no teu rosto, uma boca eleita entre todas, com soberana liberdade, eleita por mim para desenhá-la com minha mão em teu rosto, e que, por um acaso, que não procuro compreender, coincide exatamente com a tua boca, que sorri debaixo daquela que minha mão desenha em ti. Olhas-me, olhas-me de perto, cada vez mais de perto, e então brincamos aos cíclopes, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos tornam-se maiores, aproximam-se uns dos outros, sobrepõe-se, e os cíclopes olham-se, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem, com um perfume antigo e um grande silêncio. Então as minhas mãos procuram afogar-se no teu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do teu cabelo, enquanto nos beijamos como se estivéssemos com a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragrância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto-te tremular contra mim, como uma lua na água.
[Julio Cortázar] 


19 abril 2012

[o meu Porto]

Minha cidade:

Já não sei há quantos anos gosto de ti, nem quando ganhei consciência deste amor, se é realmente amor este gostar de caminhar pelas tuas ruas, entre a ruína das tuas casas, e o prazer de passar o gomo dos dedos pela pele fria dos teus granitos, de olhar o rosto da melancólica sombra daquilo que podias ter sido se não te tivessem tratado com tamanha indiferença e tanta falta de atenção. Mas acho que gosto de ti mesmo assim, com todos os teus defeitos, as cãs do teu cabelo e as rugas de expressão que testemunham a vida cheia que tens tido, as festas e as alegrias, o teu corpo em azul e branco e perfumado de manjericos, mas também o interesse regular desses contabilistas do amor que só queriam o teu corpo, usar o teu corpo e passeá-lo pelos salões de festas, exibir-te como teus proprietários.

Envelheceste, Porto. Não és, nunca foste, uma cidade de amor fácil, nem oferecido. Nem sequer me olhas quando eu passo por ti e me comovo com as tuas curvas, com a sombra das tuas esquinas ou o fulgor da luz nas tuas janelas. Ignoras-me. Mas tens lá os teus humores, as tuas manias, e um orgulho tolo que te faz, às vezes, entregar-te ao primeiro cretino que te aparece à porta e te sussurra coisas parvas com falinhas mansas. Eu gosto de ti na mesma. Namoro-te às escondidas e nem precisas de saber que estou diante da tua janela à espera de te ver despertar sozinha, independente e nobre. Os outros podem ter ido embora, desistido de ti, podem ter-te trocado por outras urbes, pelos encantos cosmopolitas de certas europeias capitais, de tailleur e saltos altos, mas eu continuo aqui, minha tonta, à espera de te ver espreguiçar e pôr uma magnólia nos cabelos.



Quando, às vezes, me perguntavam porque gosto de ti, porque continuo a gostar de ti apesar de tudo e das nódoas negras do teu orgulho ferido, eu dizia-lhes que não há outra cidade como tu. Que há Paris e Londres, que há o Rio de Janeiro, sim, e Nova Iorque, e Praga, e Barcelona, e Salvador da Bahia e Veneza, tudo muito certo, são belas cidade e porque não?, mas que não há outra cidade como tu, espraiando-se sobre o rio, encavalitando-se nas suas margens, jogando às escondidas com os seus segredos, rindo-se quando há sol e recolhendo-se quando a chuva vem. Vista de um certo ângulo, a partir de Gaia, dizia-lhes, és uma das mais impressionantes paisagens urbanas do mundo. Creio que, por dentro, eles sorriam. Precisaram que uma companhia aérea com viagens de baixo custo para cá trouxesse os turistas que te haviam de cobiçar, precisavam que outros te namorassem para perceberem exactamente o que eu lhes dizia, que nenhuma das tuas nódoas negras, nem os macaquinhos da tua cabeça, são capazes de esconder aquilo que realmente és: incomparável flor do Douro, inculta e bela.

Gosto de ti, minha parola.

[Manuel Jorge Marmelo]

Foto: ariana luna, 1996, Cais da Ribeira [quando o centro histórico do Porto recebeu o título de "Património Mundial da Humanidade"]

10 abril 2012

[chuva]

‎[o que não for para mim que a chuva leve
 o que for para mim que o sol me traga



Existe apenas uma idade para sermos felizes, apenas uma época da vida de cada pessoa em que é possível sonhar, fazer planos e ter energia suficiente para os realizar apesar de todas as dificuldades e todos os obstáculos. Uma só idade para nos encantarmos com a vida para vivermos apaixonadamente e aproveitarmos tudo com toda a intensidade, sem medo nem culpa de sentir prazer. Fase dourada em que podemos criar e recriar a vida à nossa própria imagem e semelhança, vestirmo-nos de todas as cores, experimentar todos os sabores e entregarmo-nos a todos os amores sem preconceitos nem pudor.
Tempo de entusiasmo e coragem em que toda a disposição de tentar algo de novo e de novo quantas vezes for preciso. Essa idade tão fugaz na nossa vida chama-se presente e tem a duração do instante que passa...


[Mário Quintana]

02 abril 2012

[golden heart]

Se tens um coração de ferro, bom proveito.
O meu, fizeram-no de carne, e sangra todo dia.


[José Saramago]