29 março 2012

[amar]

Quanto mais envelhecia, quanto mais insípidas me pareciam as pequenas satisfações que a vida me dava, tanto mais claramente compreendia onde eu deveria procurar a fonte das alegrias da vida. Aprendi que ser amado não é nada, enquanto amar é tudo [...].
O dinheiro não era nada, o poder não era nada. Vi tanta gente que tinha dinheiro e poder, e mesmo assim era infeliz. A beleza não era nada. Vi homens e mulheres belos, infelizes, apesar de sua beleza. Também a saúde não contava tanto assim. Cada um tem a saúde que sente. Havia doentes cheios de vontade de viver e havia sadios que definhavam angustiados pelo medo de sofrer.


A felicidade é amor, só isto.
Feliz é quem sabe amar. Feliz é quem pode amar muito.
Mas amar e desejar não é a mesma coisa.
O amor é o desejo que atingiu a sabedoria.
O amor não quer possuir.
O amor quer somente amar.

[Hermann Hesse]



[existe felicidade maior do que fazer feliz quem se ama?]

21 março 2012

[poesia]

Desculpem-me a falta de modéstia;
Desculpem-me este brilho no olhar;
Desculpem-me o coração descompassado;
Desculpem-me a minha sensibilidade acutilante 

                      [não confundir com fragilidade];
Desculpem-me esta alegria que faz de mim quem sou;
Desculpem-me o meu romantismo exacerbado 

                       [não confundir com pieguice];
Desculpem-me esta visão subliminar do mundo;
Desculpem-me esta claridade nas palavras;
Desculpem-me se a paixão é o mote da minha vida;


[quando rio às gargalhadas, quando amo apaixonadamente, quando escrevo, quando leio os meus poetas, quando olho o mundo através da lente da minha leica, quando danço tango argentino, quando cozinho para quem gosto, quando projecto, quando partilho, quando me entrego]

19 março 2012

[há dias assim]

Há dias que se nos colam à pele como uma memória feliz e nos fazem acreditar que a tudo resistimos. Dias que são marcos bem definidos na cronologia da nossa existência. Dias que deitam por terra todas as teorias antes perfilhadas e abnegadamente defendidas. Dias que nos dão asas e sorrisos rasgados às escuras. Dias tão grandes que o peito é um lugar demasiado pequeno para o acolher. Dias infinitos de esperança e de crença inabalável num amanhã iluminado.


[recordo-me hoje de um dia assim]

15 março 2012

[...]

Concede-me, Senhor, serenidade necessária para aceitar as coisas que não posso modificar; coragem para modificar as que posso e sabedoria para distinguir umas das outras. 
Um dia de cada vez;

13 março 2012

[caligrafia]

quero escrever-te por dentro
desordenada e delicadamente
página a página, no teu corpo em branco

escrever-te devagarinho
desenhar palavras genuínas
no teu coração em banho-maria
destilando ternura a conta-gotas
nos espinhos crescidos no meu corpo

escrever-te no dialecto do querer
conjugar o verbo descobrir na tua pele e
saborear-te vagarosamente em cada frase


[ariana luna]


10 março 2012

[R]

No dia em que começou a Primavera desarmei-te o coração. Não sabia que o tinhas colado com fita-adesiva e que – apesar de acreditares incondicionalmente no amor – o preferias manter armadilhado.

Apareceste-me feita alegria e luz numa noite em que a lua – anunciavam – iria aparecer maior do que nunca.
Nesse dia, roía-te por dentro o orgulho por causa de um potencial amor que poderia ter sido mas que nunca o chegou a ser. Rias levemente ébria e feliz por sentires que tinhas fechado mais essa porta no teu peito e por teres amigos que eram como âncoras seguras no teu caminho.
Eu olhava-te discretamente sem nada saber de ti. Apenas olhava o teu sorriso de menina pequena e os teus olhos feitos de mar.
Olhava-te sem nada te poder dar. Tinha um espaço vazio no lugar do coração, à força de tanto o comprimir e amaldiçoar. Esmaguei-o nas longas noites de insónia e desespero e agora poderia olhar-te sem medo. Olhar qualquer mulher sem receio. Tinham-me incendiado o coração à queima-roupa um par de anos antes e agora, livre de tudo e sobretudo de mim mesmo, nenhum mal me poderiam fazer porque cá dentro não existia nada.
Por isso, abandonava-me a observava-te com os meus olhos muito negros e tristes sem que me notasses, sem que o nosso olhar se cruzasse.
Olhava-te e pensava que fazia tempo que nenhum olhar me prendia.
Surpreendeu-me pensar nisso e fez-me sorrir por dentro.

09 março 2012

[coração]

Não tenho coração.

Tenho apenas um buraco onde antes ele batia.
Procuro-o sentir, pousando a minha mão direita sobre ele e nada. 
Não sinto nada. Somente uma leve asfixia e um silêncio denso que escorre pelo meu peito abaixo.
Não tenho coração, segredo baixinho para mim mesma.
Quando nas noites de insónia ou trovoada encostava a minha cabeça ao teu peito e escutava o compasso do teu, sossegava e os meus olhos fechavam-se como num embalo.
O teu coração de menino pequeno segredava-me todos os medos, dúvidas e receios e eu, escutava pacientemente, com a certeza que o meu amor infinito um dia quebraria o feitiço.

[pena que nunca tivesses aninhado a tua cabeça no meu peito e escutado os segredos do meu coração transparente, feito mel e claridade…]

07 março 2012

[hoje]

‎[querida avó, trocava o meu mundo inteiro por um abraço quentinho teu, cheio de amor infinito]

03 março 2012

[é tempo]

Há um momento na vida em que é preciso focalizar. Mudar de perspectiva. Parar para avançar. Não recusar o futuro. Não olhar para trás nem lamber as feridas. Não temer voltar a cair. Não correr meio mundo para nos encontrarmos, quando no fundo andamos a fugir de nós mesmos. Resgatar o mais visceral de nós, que outrora atiramos para o poço mais profundo.

Há um tempo para ultrapassar barreiras. Para nos libertarmos daquela bagagem de pequeninos nadas. Mudar de pele e abrir os olhos. Atravessar aquela ponte instável sem olhar para baixo. Tempo de seguir em frente, sem lamentações, nem saudade, sem planos, sem aquele nó no estômago. Tempo de viver mais devagar. Sem a sofreguidão de todos os dias.

É tempo de dissecar cada pedaço para depois os juntar. 

Limpos e inteiros. Tempo de me abandonar nas coisas mais simples e essenciais. Não pedir desculpa por querer menos que tudo. 
É tempo.

[ariana luna] 


Foto: Jeff Zoet