25 agosto 2010

[essência]

Tinham-lhe despedaçado o coração num dia tempestuoso de início de Primavera. Tinha prometido ferozmente que não o voltariam a fazer. Que o amor seria apenas o mote dos seus poemas e dos momentos aprisionados nas suas fotografias, mas jamais da sua vida. Juntou todos os pedaços do seu coração com fita-adesiva o melhor que soube e pode e arrepiou caminho numa vida frenética de muitos projectos e viagens.

Um dia, depois de muito tempo a caminhar ilesa, ele apareceu na sua vida. Da forma mais natural e discreta [não fosse ela notar os sinais e activar os alarmes de segurança] conheceu-o numa tarde luminosa num qualquer dia de verão numa praia há muito palmilhada numa roda de amigos. Nunca soube o que a encantou. Se o jeito de menino reguila, os olhos muito negros que a olhavam atentos quando ela falava, o porte altivo, seguro mas afável, o sentido de humor quase infantil ou a sua alegria contagiante.
Alguns meses e muitos encontros casuais depois, fizeram parte da vida um do outro. A descontracção, a atitude descomplicada com que abraçava a vida, o optimismo, a sensualidade típica do país latino onde nascera, a proximidade geográfica e a entrega e confiança que depositava na relação faziam dele um companheiro desejado.

Ele vivia em função dela. Era atento, romântico, sedutor e tranquilo. Ela [sem perceber porquê] viveu longos meses numa tristeza infinita. Um dia diz-lhe que não é a mulher certa para ele e que ele não era o homem certo para ela. Ele tinha tudo o que ela desejava num homem. Apenas não falavam a mesma linguagem e ela sabia claramente que ele nunca iria entender a sua verdadeira essência. O que a emocionava, o que lhe despertava os sentidos, o que lhe iluminava os lugares recônditos do seu coração despedaçado.