26 julho 2010

[black coffee]

um dia destes convido-te 
para um café à beira-mar 
[e sei que vais aceitar]


[Ellen Von Unwerth, para Lavazza, 2006]

[talvez por isso é que ainda não te convidei]

24 julho 2010

[sílaba a sílaba]

A palavra, como tu dizias, chega
húmida dos bosques: temos que semeá-la;
chega húmida da terra: temos que defendê-la;
chega com as andorinhas
que a beberam sílaba a sílaba na tua boca.

Cada palavra tua é um homem de pé;
cada palavra tua
faz do orvalho uma faca,
faz do ódio um vinho inocente
para bebermos contigo
no coração em redor do fogo.

Eugénio de Andrade


[deviantART]

22 julho 2010

[reencontro]

Amar-se a si mesmo é o início de um romance que dura até ao fim da vida.
Oscar Wilde


[Helmut Newton - pormenor]

[tinha-me perdido de mim. já me reencontrei.]

17 julho 2010

[o mundo inteiro]

Quis dar-te o mundo. [O meu mundo inteiro.] Levar-te pela mão e mostrar-te que a vida não é só isso que tu tens. É tudo o resto que estás a perder. [Tudo o que te falta conhecer.] Quis fazer-te sentir coisas que nunca antes tinhas sentido. [Quis sentir coisas que nunca antes tinha sentido.] Quis virar o mundo ao contrário. [Fazer do mundo uma casa pequena demais para nós os dois.] Conhecermos de mãos dadas mares, ilhas, casas, pessoas, países, sabores diferentes, emoções novas, prazeres intraduzíveis por palavras. Tive medo mas acreditei. Acreditei sempre que poderia soltar amarras e deixar-me flutuar à deriva. Que estarias lá. Para me abrigares nos teus braços e não me deixares afogar. Acreditei que o meu mundo te faria ser melhor. Te faria querer abrir os olhos. [Te faria deixar de ter medo de viver.] Que o meu mundo inteiro seria feito de luz e de nuvens e de poemas limpos e claros. Que te envolveria com palavras originais inventadas para nós e apenas para nós fariam sentido. [Acreditei que quando se quer e se gosta e se sente só a verdade é permitida.] 
Acreditei e esqueci-me de abrir os olhos.



[Quis dar-te o mundo. O meu mundo inteiro.]

16 julho 2010

[acordar]

[quando acordo, vejo o amor da minha vida]


[Chris Craymer]

[um dia. todos os dias. será assim.]

13 julho 2010

[combat]

ontem matei-te vezes sem conta
[hoje continuas a rutilar incandescente nas artérias]


[deviantART - pormenor]

11 julho 2010

[under your skin]

sei que estou aí
debaixo da tua pele

[é ainda melhor]

Apanhar sol numa praia linda, desfrutar da companhia de amigos sinceros e verdadeiros [daqueles que sabemos que estão lá, para o que der e vier], rir muito de coisas sérias, de disparates pegados e sobretudo de nós próprios. Assistir ao Festival de Curtas e ver trabalhos de extrema qualidade num local cheio de charme. Cuidar de mim em todos os sentidos como há muito tempo não fazia. Mimar quem gosto porque o mais importante da vida são as pessoas. 
[Tudo o resto é acessório.] 


É muito bom e faz ainda melhor.



[deviantART - pormenor]

10 julho 2010

[é bom]

Sair dos dias. Não dormir. Não falar com ninguém. Ficar de fora do lá de fora. Ocupar o coração. À força. Ser como ele.

É muito bom e faz muito bem.

Espera-se um bocadinho e, pouco a pouco, ele começa a correr para dentro de nós, aflito por atenção. Traz as coisas que adiámos, em que não reparámos, que não tivemos tempo de cuidar. E primeiro vêm as mágoas. A felicidade que recusámos. Sem saber. Sempre sem saber. A tristeza que fugimos. Voltam. É muito bom e faz muito bem.

Sair de nós. Cair nos outros. Não escrever. Ler. Não pensar. Lembrar. Os amigos quietos. O murmúrio do riso que riram. A família parada. O colo onde cabe a cabeça. O amor adormecido. Estas coisas acordam. E sossega saber que nós não somos nada sem eles. E mesmo com eles, quase nada. Escravos de carinhos somos nós, seguindo atrás, de braços abertos, numa fila sem fim.

É muito bom e faz muito bem.

Sair dos trabalhos, do dinheiro, das palavras que nada querem ou conseguem dizer. Fazer gazeta. Faltar. Desobedecer. É um trabalho também. Não ir. Não responder. Não entregar. É cumprir também. Desmergulhar. Desfazer. Desacontecer. São tarefas também. Ainda mas difíceis, talvez.

É muito bom e faz muito bem.

Sair da ordem. Cair na doçura do acaso. Trocar de caos. Descer. Vestir a mesma roupa. Não fazer a barba. Beber. Fumar. Sem pausa. Sem razão. Ceder. Emergir. Abandalhar. Fazer o que não se está a fazer. Esticar a corda. Não atender. Desarrumar os livros. Passear pela casa como se fosse uma cidade destruída. Estragar.

É muito bom e faz muito bem.

Sair da vontade. Cair na estupidez. Não descansar. Ver televisão numa língua que não se compreende. Forçar. Esquecer.

Fazer o que não apetece fazer. Contrariar. Confundir. Comer atum de conserva com uma colher. Pôr o despertador para tocar mal se comece a adormecer. Dizer disparates em voz alta."Todos agora". Virar o bico ao pego. Arrepiar. Arrepender.

É muito bom e faz muito bem.

Sair do corpo. Cair na alma. De chapão. Sem ver nada à frente. Receber os mistérios. Sem cerimónias. Sem compreender. Ser absorvido. Subjugado. E agradecer. Perder o norte, o fio, os sentidos. E gostar. Divertir. Desprender. Chafurdar na lama. Acriançar. Rir. Começar a chorar. Ser levado, enlevado, enganado, desprotegido, confuso, cruel. Desviado.

É muito bom e faz muito bem.

Sair da vida. Cair na morte. Sofrer. Iludir. Acabar. Permanecer na cama. Pensar em tudo o que se faz como se fosse a última vez. Esmorecer. Querer voltar atrás e fingir que já não se pode. Confessar. Pedir. Esvaziar. Ter pena de quem se foi e do que se fez. Rejeitar o perdão, a redenção, a última oportunidade.

É muito bom e faz muito bem.

É tão bom e faz tanto bem que, às vezes, cada vez mais, não apetece regressar. Tanto que só nos resta levantarmo-nos de onde caímos e, deixando-nos conduzir por tudo o que nos tolheu os passos desde o dia em que começámos a errar, na contramão das nossas almas, só nos resta procurar um sítio onde a nossa ida não se reconhece, não se aceita, não faz sentido, e entrar.

Entrar aqui. Daqui de onde nunca se sai. E ficar.

Miguel Esteves Cardoso

08 julho 2010

[determinação]

Quando não se sabe para onde se vai, nunca se vai muito longe. [Goethe]

Uma das características que mais me seduz é a determinação. É indubitavelmente uma das virtudes que mais define a personalidade e distingue a capacidade de arrepiar caminho ou permanecer inerte à espera do sol-posto.
Seja pela alegria entusiasta de viver, pela firmeza inabalável de carácter ou pela perseguição estóica de um sonho, a determinação guia-nos sempre em direcção aos nossos objectivos, ao nosso ponto B.

Cometemos erros, caímos inúmeras vezes, mudamos de vontades, trocamos de percurso, seguimos outro trilho mais íngreme mas mais desafiante, sofremos, desesperamos, rimos de nós próprios, porque sabemos que chegaremos lá. Porque cada passo encurta a distância, cada gota de suor relembra-nos a meta, cada experiência diminui as possibilidades de equívoco.

Enganei-me algumas vezes, fui crédula outras tantas, tive medos desnecessários, estatelei-me ao comprido, levantei-me a seguir mais forte e nunca por um momento deixei de saber quem era e o que queria fazer com a vida que tenho.




[Fez um ano que uma amiga de longa data morreu. Era pouco mais velha que eu e nunca a vi perseguir nenhum sonho. Vivia uma vida enfadonha, num emprego que a entediava e nunca lutou por nada que a fizesse sentir viva. 

Morreu asfixiada num ataque de epilepsia. A meu ver, já tinha morrido muitos anos antes.]

06 julho 2010

[because]

05 julho 2010

[petit-fours]

Se alguém liga a dizer "Estás no atelier? Vou passar aí para te levar um doce!" e te oferecem macarrons feitos pelo próprio para saborear com o café, o dia tem [definitivamente] outro sabor.

03 julho 2010

[açúcar queimado]

com teu sabor de açúcar queimado em redor da noite
sonhar perto do coração que não sabe como tocar-te

Al Berto, in Salsugem


[deviantART - pormenor]

[eclipse]

Sentados sobre as camas de ferro dos seus quartos, lembraram-se: 
encontrámo-nos. Naquele dia, perante a imagem verdadeira um do outro, sentiram: encontrámo-nos.
No rosto dele, a esperança. No rosto dela, mais do que a esperança. Encontramo-nos. Encontrámo-nos. Encontraram-se. Foi ele que caminhou a distância pequena que ainda os separava. Foi ele que estendeu os braços. Ela baixou o olhar entre o seu corpo imóvel e a terra. Os braços dele sem uso. As palavras formaram-se dentro dela. As palavras aproximaram-se dos seus lábios. No silêncio, entre os seus rostos, as palavras existiram e foram um eclipse.

José Luís Peixoto, in Antídoto



[deviantART]

01 julho 2010

[dna]

Queridos Pais,
Agradeço sobremaneira o empenho demonstrado aquando da minha concepção, mas terem-me feito inteligente, com sentido de humor e imaginação, na conjuntura actual que atravesso não abona de todo a meu favor. Há quem considere esse trio deveras assustador e a menina aqui fica mingau.

desta filha que vos adora,
ariana


[deviantART - pormenor]

[aceita-se]

aceita-se gato azul da rússia


[Oferece-me mimos, ronron até horas tardias, festas por todo o corpo, massagens, banhos prolongados à temperatura certa, ter o prazer de ficar enroscado em mim no sofá, andorinhas na varanda e jantares gourmet]