14 junho 2010

devagarinho

A porta está aberta. Empurra-a. Entra devagar. Agora, se prestares atenção, podes ver tudo o que se passa dentro do quarto. Tem cuidado, não faças barulho, tenta não respirar. Ela está deitada sobre a cama com o roupão de turco branco entreaberto. Ele está de joelhos a beijá-la entre as pernas. A luz é pouca mas suficiente. Ficaria bem numa cena de um filme, a preto e branco. Agora podes aproximar-te. Não batas no candeeiro de pé que apesar de apagado está à tua direita. Agora sim, podes fixar a cara dela. O que vês? O prazer. O prazer é coisa que se veja? Podia ser dor. Ouve agora o que dizem os amantes quando se agarram. Gritam. Não se entende. Ele beija-a todo o tempo. Uma nuvem de sangue tinge lentamente o roupão de turco branco. Tu olhas, nada mais. Agora já te podes retirar. Podemos começar por qualquer lado que tanto faz. Havemos de chegar lá. Não me perguntes onde. Quando chegarmos saberás. Agora é cedo para perguntar. Ouve só.

Pedro Paixão in Muito, meu amor



[deviantART]