30 junho 2010

[sentido]

Há dias em que nada me faz sentido.
[nem este sol radiante. menos ainda o meu coração apertado.]


[deviantART]

29 junho 2010

[um dia]

28 junho 2010

[secret place]

27 junho 2010

[cafuné]

fecho os olhos 
e sinto as minhas mãos 
a brincarem nos teus cabelos


[deviantART - pormenor]

26 junho 2010

[esta noite]

queria ter-te hoje nos meus braços
quando o silêncio descesse sobre a rua
e tu fosses luz e mãos de tantas noites claras

esta noite queria que o tempo não soubesse deslizar
que os olhos se fechassem para ouvir a ode aos corpos unos
e adormecessem levando a imagem de um mundo acabado de 
                                                                                  [nascer

esta noite vamos passá-la a contar estrelas
esperar até que o sol acorde para nos entregar de novo à noite e
celebrar secretamente todos os passos que demos um pelo outro

ariana luna



[deviantART]

25 junho 2010

[paixão]

Um homem pode mudar tudo, 
menos a sua paixão.


El secreto de sus ojos, de Juan José Campanella [2009]

24 junho 2010

[chegará o dia]

chegará o dia
em que as palavras eclodirão transparentes
que na minha garganta não se constranja
a poesia tecida no meu peito
e possa [finalmente]
ser ilha, semente, água, mel e lume
[chegará o dia]

ariana luna


[deviantART]

23 junho 2010

quero

[beijar-te à chuva]


[deviantART]

22 junho 2010

[por fim]

E de repente a tempestade, as ondas alterosas, o vento sibilante, a chuva caindo sobre as nossas cabeças enquanto fugíamos, rindo, à procura do refúgio do quarto. E de repente o sossego, a paz nos nosso corações atribulados, o alívio de por fim nos termos encontrado.

Pedro Paixão in Amor Portátil


[deviantART - manipulada digitalmente]

21 junho 2010

no meio da ponte

Há alturas na vida em que nos sentimos no meio da ponte.
Não sabemos se seguimos caminho.
Se voltamos à casa da partida.
Se saltamos para águas desconhecidas.

Nenhuma destas hipóteses é segura. A vida não é segura. [Ainda bem. Seria demasiado previsível e aborrecida.]
Existem pessoas que a ideia de segurança e de constância é a única que conhecem e admitem. Essas pessoas raramente cometem erros. Essas pessoas raramente se deixam surpreender. [Não sabem o que perdem…]


[deviantART]

[Neste momento estou no meio da ponte. 

A apreciar a paisagem.]

19 junho 2010

moleskine

Gostava de te poder dizer que me tocas por dentro de uma forma que me assusta e me emociona. Que me desenhas na pele uma alegria insuspeita e me roubas sorrisos idiotas dos planos impossíveis que fazemos.

[deviantART]

[Gostava de te dizer isto. Gostava de te dizer muito mais. De te fazer sentir muito mais. Mas não posso. Tenho que te arrancar de cá de dentro com toda a força das minhas entranhas, que ainda não contaminaste.]

18 junho 2010

coração de carne

Se tens um coração de ferro, bom proveito. 
O meu, fizeram-no de carne, e sangra todo dia.


José Saramago


[ariana luna] 

[Obrigada José. Pelas palavras simples mas audazes, por dizeres o que pensas, sempre o que pensas. 
Ofereço-te as minhas buganvílias, por me teres feito ver o mundo através dos teus olhos sábios.]

15 junho 2010

dentro de ti

Só por dentro de ti há corredores
e em quartos interiores o cheiro a fruta
que veste de frescura a escuridão...

Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que me sai, sem voz, do coração.

David Mourão-Ferreira


[ariana luna] Paraíso perdido algures no Norte

14 junho 2010

devagarinho

A porta está aberta. Empurra-a. Entra devagar. Agora, se prestares atenção, podes ver tudo o que se passa dentro do quarto. Tem cuidado, não faças barulho, tenta não respirar. Ela está deitada sobre a cama com o roupão de turco branco entreaberto. Ele está de joelhos a beijá-la entre as pernas. A luz é pouca mas suficiente. Ficaria bem numa cena de um filme, a preto e branco. Agora podes aproximar-te. Não batas no candeeiro de pé que apesar de apagado está à tua direita. Agora sim, podes fixar a cara dela. O que vês? O prazer. O prazer é coisa que se veja? Podia ser dor. Ouve agora o que dizem os amantes quando se agarram. Gritam. Não se entende. Ele beija-a todo o tempo. Uma nuvem de sangue tinge lentamente o roupão de turco branco. Tu olhas, nada mais. Agora já te podes retirar. Podemos começar por qualquer lado que tanto faz. Havemos de chegar lá. Não me perguntes onde. Quando chegarmos saberás. Agora é cedo para perguntar. Ouve só.

Pedro Paixão in Muito, meu amor



[deviantART]

13 junho 2010

reborn

O que sou hoje? Zero. O que posso tornar-me amanhã? Amanhã posso renascer dos mortos e começar a viver de novo! Posso ressuscitar o homem em mim, enquanto não me perder completamente!

Fiódor Dostoiévski  

[deviantART]

08 junho 2010

[amor]

Com maior ou menor frequência, acontece-nos a todos tropeçar em alguma coisa ou alguém que nos obriga a parar e a pensar. Os acontecimentos à nossa volta, as circunstâncias específicas de cada um, a vida vivida (e quase nunca sonhada) e aquilo que não entendemos levam-nos a fazer perguntas a nós próprios. A tentar perceber, a encontrar um sentido, a avaliar e a medir.
[…] Temos tantas coisas mal arrumadas dentro de nós que a tentação de evitar caminhos é banal e universal.
Acontece que nem sempre podemos “ir à volta”, assobiar para o ar ou fingir que não vemos o que estamos a ver e não ouvimos o que estamos a ouvir. Falo, em especial, da voz interior que nos habita e jamais poderemos calar. Falo de sentimentos, portanto.
Alguém disse um dia que "deixar-se amar é aquilo a que todos resistimos mais ao longo da nossa vida" e, de facto, deixarmo-nos amar é de certa forma incómodo. Senão vejamos.
Aceitar amar e ser amado envolve riscos à partida: podemos sofrer com esse amor; podemos achar que não estamos à altura de responder aos seus desafios; podemos sentir posse e ciúmes e podemos ter a angústia de o vir a perder. Para quem, como nós, tem tantos medos e aflições, e, insisto, tantas coisas por arrumar cá dentro, estes e outros riscos são um preço demasiado elevado para pagar pelo amor. Ou não. Tudo depende do preço que cada um está disposto a pagar por aquilo que é verdadeiramente essencial para si.
[…] o tempo e a vida muitas vezes se vão encarregando de nos tirar a capacidade de amar e de sermos amados, na medida em que nos vão enchendo de coisas, interesses, medos, equívocos, situações menos claras, critérios, prioridades e preguiças que se vão instalando na nossa cabeça e no nosso coração e nos impedem de sentir com verdade. Este tempo vertiginoso e esta vida acelerada confundem-nos e alteram a nossa maneira de ser e de estar. Muitas vezes não percebemos o que é importante e não sabemos onde pomos o coração. O pior é que frequentemente as nossas prioridades do coração não acompanham as da cabeça e é este descompasso de racionalmente sabermos o que vem em primeiro lugar, mas emocionalmente não sermos capazes de lhe dar a prioridade absoluta, que, tantas vezes, nos deita a perder.
E é justamente nesta lógica, neste sentido exigente e perturbador, que o amor exerce alguma violência sobre nós. Ou pelo menos alguma pressão, na medida em que nos obriga a perceber que se não há espaço para amar é porque esse espaço está ocupado com outras coisas.
Por tudo isto, só é possível ir mais longe se arriscarmos quebrar paredes e derrubar muros que permitam criar o espaço que nos falta. Ou fazer como fazem os entendidos, que podam as videiras e cortam os ramos para que os frutos cresçam mais e a seiva circule melhor.

Laurinda Alves, Revista Xis – Jornal Público, Abril 2005 

07 junho 2010

nas tuas mãos

Com mãos se faz a paz se faz a guerra.
Com mãos tudo se faz e se desfaz.
Com mãos se faz o poema – e são de terra.
Com mãos se faz a guerra – e são a paz.
Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra.
Não são de pedras estas casas mas
de mãos. E estão no fruto e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.
E cravam-se no Tempo como farpas
as mãos que vês nas coisas transformadas.
Folhas que vão no vento: verdes harpas.
De mãos é cada flor cada cidade.
Ninguém pode vencer estas espadas:
nas tuas mãos começa a liberdade.
Manuel Alegre


[getty images]