01 dezembro 2008

arranquem-me o coração

De manhã abria a janela por onde entrava uma vaga de luz e colhia uma laranja que descascava com dedos. Oferecia-me os seus gomos, que de azedos contrastavam com o doce dos seus beijos.
«Ninguém sabe despertar assim tantos prazeres no meu corpo» dizia-me. E eu perguntava: «Ninguém?» E ela calava-se.

Sereia na banheira com a pele descoberta muito branca, transparente. Veias violetas para os indiscretos como eu, espreitando pela janela em equilíbrio instável.
E os olhos dela fazem lembrar o mar (mas não falemos dos olhos que quase fazem chorar) e as escamas todas nos meus olhos.

Torradas de mel com golos pequenos de chá na varanda de casa, terras de Espanha ao fundo, e o seu corpo quente ainda na memória.
«Esquece-te de tudo.» dizia. «Fica só com o sabor quente do chá e os olhos a piscarem da luz demasiado intensa. Deita pela varanda fora tudo o que tens trazido agarrado a ti: pequenas falhas, anseios, desejos vagos, o livro por escrever.»

Fecho os olhos e ao tocar no chá quente com os lábios concentro-me unicamente num rasto do seu corpo ainda quente nos meus dedos. O amor nada tem a ver com a mentira ou a verdade, eu aprendi. O que o amor muito grande faz é enlouquecer e eu já enlouqueci.

«Estou aqui. Não me vês? Estou aqui. Olha para mim.» dizia. E eu perguntava: «Olhaste para mim? Porque é que olhas para mim?». E ela calava-se.

Constantemente interrompidos por chegadas e partidas desfazem-se os beijos quando começamos a dá-los. Rasgamos abraços e tu dizes: «Podias ser um assassino, mas eu sem ti não acredito em mim». A vida é uma porcaria, digo, e depois arrependo-me.

[…]
Quem me livra deste amor que eu não escolhi?


Pedro Paixão, in Histórias Verdadeiras

[Getty Images]

2 Comments:

At 2 de dezembro de 2008 às 01:01, Blogger Tangerina said...

...o amor.
Raios partam o amor e o desatino que traz.
Raios partam os beijos e os cheiros que não se esquecem.
Raios partam a vida que nunca dura o suficiente para nos resgatarmos da demência da paixão.

...odeio o amor.

 
At 2 de dezembro de 2008 às 15:14, Blogger Pedro de Payalvo said...

nunca se escolhe quem se vai amar, até podemos conseguir ser racionais o suficiente para saber quem seria a pessoa ideal, mas forçando isso, nunca vamos ser tão felizes do que a amar quem não escolhemos, por muito curto que seja, por muita dor que nos cause...

 

Enviar um comentário

<< Home