30 outubro 2008

chegou o frio

O frio. Os chás de menta e especiarias que aquecem as mãos. As meias de lã. Os cachecóis longos e coloridos. Os cappuccinos com uma pitada de canela e chocolate. Os filmes noite adentro, enrolada na manta. As torradas de pão de centeio com pouca manteiga no bar preferido sobre as dunas. Os banhos [muito] demorados. As mãos entrelaçadas debaixo da manta. Os chinelos quentinhos que substituem as havaianas. Os casaquinhos aconchegantes. As tardes a pintar junto à janela onde a chuva a fustiga e acaricia. Os chás de limonete a perfumar o ar. As músicas sempre a tocar nas sonolentas tardes de domingo. Os bolos de iogurtes ou de cenoura. As manhãs de sol com o frio [tão bom!] a cortar o rosto nos passeios junto ao mar. Livros que me abrem [sempre] novos mundos. As revistas e as almofadas espalhadas junto ao pouf vermelho. O chocolate quente no café secreto na minha praia. As árvores vestidas de todas as cores. A gabardine cor de chocolate. Os guarda-chuvas que perco algures em poucos minutos. As noites em que adormeço embalada ao som das primeiras chuvas.

[Getty Images]

29 outubro 2008

nas minhas mãos

Hoje roubei todas as rosas dos jardins
e cheguei ao pé de ti de mãos vazias.

Eugénio de Andrade

[Getty Images]

24 outubro 2008

tempo

Era uma vez uma menina que queria ter tempo.
Tempo para si e para aqueles que gosta e que merecem os seus mimos.

Tempo para o fim-de-semana planeado a rir com os amigos distantes.
Tento para as suas palermices de menina [embora nunca as faça, pois esta menina porta-se demasiado bem para meu gosto].

Era uma vez uma menina que queria [muito] ter tempo.
Tempo para passaritar na areia dourada que faz cosquinhas nos pés.
Tempo para namorar o mar na sua praia e ver o sol a pôr-se devagarinho ao fim da tarde.
Tempo para escutar todas as músicas e ler todos os livros que esperaram pacientemente pelas mãos da menina.
Tempo para a sua [mágica] hora zen.

Era uma vez uma menina que queria [mesmo muito] ter tempo.
Tempo para congelar com a sua leica todas as imagens que os seus olhos [reguilas de menina] consideram imperdíveis.
Tempo para escrever todos os pensamentos originais que lhe perpassam o pensamento a 200 à hora.
Tempo para sonhar [faz-lhe tanta falta esse tempo].

Era uma vez uma menina.
Era uma vez.

23 outubro 2008

pôr-do-sol procura-se!

Roubaram-me o pôr-do-sol. Nem mais!
Bastaram umas semanas [uns míseros dias, digo-vos eu!] e o Outono instalou-se no lugar que é seu por direito. O trabalho impede-me de chegar a horas de ver sequer o lusco-fusco. O tempo do sol-posto à hora do jantar vai ter agora que esperar longos meses.
Pensei em pedir o livro de reclamações, apurar responsabilidades junto do Ministério do Ambiente ou advertir as autoridades que é imperativo repor a ordem cromática no céu.
Não me aquietei. Somente continuo a deliciar-me com todas as imagens que arquivei na memória durante o verão.
Resta-me o cheiro do mar ao final da tarde, o silvo das gaivotas e a areia húmida nos pés.


[ariana luna] Paraíso Secreto algures no Norte, Outubro 2008

21 outubro 2008

Ney inclassificável

[ariana luna] Ney Matogrosso, Coliseu do Porto, 19 de Outubro de 2008

[Ney camaleão num espectáculo intimista, pleno de cor, energia e sensualidade. O CD "Inclassificáveis" (a fervilhar de originais e óptimas adaptações de Cazuza) merece ser escutado em noite de estrelas.]

14 outubro 2008

genética

Deus meu, porque não me fizeste insensível e com uns bons neurónios a menos?

[Acredita que seria mais fácil. Bem mais fácil…]

10 outubro 2008

prodigiosa contradição

Uma pessoa é um mistério, duas, com um abismo pelo meio, uma prodigiosa contradição.

Pedro Paixão, in Viver todos os dias cansa

[Getty Images]

07 outubro 2008

ausência

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Carlos Drummond de Andrade

[Getty Images]

02 outubro 2008

o mar de Sophia

De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.

Sophia de Mello Breyner Andresen

[ariana luna] Setembro 2008

[Sophia escreveu muitos dos seus poemas sobre este mesmo mar. Olhando as mesmas águas. Sentindo esta mesma serenidade. Esta mesma paixão.

Na minha praia. No meu paraíso.]