27 junho 2008

fundo do mar

Quero ver
o fundo do mar

esse lugar
de onde se desprendem as ondas

e se arrancam
os olhos aos corais
e onde a morte beija
o lívido rosto dos afogados

Quero ver
esse lugar
onde se não vê

para que
sem disfarce
a minha luz se revele
e nesse mundo
descubra a que mundo pertenço


Mia Couto


[Getty Images]

[Um dia descobrirei todos os mistérios das águas de todos os mares. As cores únicas, a luz sublime reflectida na água, a admirar extasiada todos os seres, numa dança lenta…]

26 junho 2008

cave

Duas pessoas são duas pessoas. Nunca nos pomos a pensar nisto assim, mas é inultrapassável. Queremos sempre acreditar que um casal, por exemplo, são duas pessoas que se escolheram um ao outro para partilharem. Para viverem como cúmplices. E isso até pode acontecer muito tempo, numa data de coisas.
Mas há sempre uma cave dentro de nós. Nunca, mas nunca mesmo, saberemos tudo acerca do outro. Só não percebo porque me faz isso sofrer se parece que estou a concluir que é natural, que as coisas são mesmo assim.
[…]
Ouviste cave e achas adequado, mas poderia ter dito gruta, caverna escura, essas catacumbas de que não abrimos mão, que encerramos a sete mil chaves que engolimos.
Quem és tu que viveste comigo.
Que guardavas tu nessa cave. Como foi possível tocarmo-nos sem nos revelarmos.


Rodrigo Guedes de Carvalho, in Canário

25 junho 2008

atitude

[ariana luna] Pavilhão Chinês, Lisboa, Maio 2008

[A nossa evolução depende, em grande parte, da nossa atitude perante a vida. Ela é curta demais para que cruzemos os braços, lamentemos as perdas, acarinhemos os medos, afastemos os sonhos ou soframos antecipadamente com os problemas que o futuro ainda nos colocará no caminho para nos desafiar uma vez mais.]

20 junho 2008

a sangue e fogo

Não te quero senão porque te quero,
e de querer-te a não te querer chego,
e de esperar-te quando não te espero,
passa o meu coração do frio ao fogo.
Quero-te só porque a ti te quero,
Odeio-te sem fim e odiando te rogo,
e a medida do meu amor viajante,
é não te ver e amar-te,
como um cego.


Talvez consumirá a luz de Janeiro,
seu raio cruel meu coração inteiro,
roubando-me a chave do sossego,
nesta história só eu me morro,
e morrerei de amor porque te quero,
porque te quero amor,
a sangue e fogo.


Pablo Neruda


[ariana luna] Janeiro 2008

18 junho 2008

cactos

Gosto de cactos.

[São interessantes; têm formas ousadas e cores altivas; são aparentemente fortes e incrivelmente frágeis; não requerem muitos cuidados nem se deixam tocar.]

[ariana luna] Junho 2008, cacto Gymnocalcium

[Partilho este gosto com a minha tia A., que de tempos a tempos, encontra outro cacto ainda mais catita para me oferecer. Este foi o último.]

17 junho 2008

tanto com tão pouco

Três dias no Porto, num hotel na Foz, com uma nesguinha de mar na janela. À noite, mesmo com as luzes do quarto apagadas, um halo de milagre sobre a cama, um dia mais secreto, mais íntimo, a modelar as coisas e os corpos. A claridade vinda não sei donde, da pele talvez, transfigurava tudo, as almofadas inchavam de luz, cada prega do lençol desfazia-se numa cadência de onda. O silêncio da rua que o silêncio da chuva, de tempos a tempos, aumentava, acrescentando palavras às vozes. Meu Deus, como com tão pouco se constrói o mundo. […]

António Lobo Antunes, in revista Visão [5 de Junho de 2008]

13 junho 2008

pensamento para Al Berto

agora que o teu corpo é só miragem
e fluis em cada verso construído,
não sei como falar-te.
talvez te encontre no
corredor de um pensamento

limado com a pureza inicial
de quem arranca da alma tudo que a contamina
para acolher somente o
riso, o desejo e o silêncio.

não sei como dizer-te
que te escutei noites a fio
nas páginas fluentes em delírios

ainda habitas todos aqueles que gozam
com o vento a açoitar a face
e lambem a chuva que se esvai do olhar.

não te direi adeus.
apenas te confio este poema
embrulhado num qualquer murmúrio...


[ariana luna]
13 de Junho de 1997

[Alinhavei este poema com minúsculos fios de lua no dia da tua morte.
Entrego-to hoje, 11 anos depois.
No dia em que Al Berto morreu – num dia quente de 13 de Junho – o mundo ficou irremediavelmente mais pobre e mais cinzento. Bebi-lhe as palavras em tragos largos durante toda a minha adolescência, pedindo sempre mais. Senti que tinha perdido um irmão e chorei o seu silêncio, a sua morte e a sua irremediável ausência. Mesmo sem nunca o ter conhecido.]

12 junho 2008

imprevisibilidade

Nunca são as coisas mais simples que aparecem quando as esperamos. O que é mais simples, como o amor, ou o mais evidente dos sorrisos, não se encontra no curso previsível da vida. Porém, se nos distraímos do calendário, ou se o acaso dos passos nos empurrou para fora do caminho habitual, então as coisas são outras. Nada do que se espera transforma o que somos se não for isso: um desvio no olhar; ou a mão que se demora no teu ombro, forçando uma aproximação dos lábios.

Nuno Júdice


[Getty Images]

09 junho 2008

inveja

Do lat. invidìa, significa o desejo de possuir algo que outra pessoa possui ou de usufruir de uma situação semelhante à de outrem; cobiça;

[Alegrarmo-nos com a felicidade e o sucesso dos outros significa não só crescimento interior, mas sobretudo uma paz de espírito e um olhar sereno e confiante perante a vida. Pelo contrário, a inveja – um dos sentimentos mais mesquinhos do ser humano – mostra somente pequenez de carácter. Sonhar os sonhos dos outros deve ser mesmo aborrecido…]

08 junho 2008

fashion addicted

Nada é mais belo que um corpo nu. A roupa mais bonita para vestir uma mulher são os braços do homem que ela ama. Para as que não tiveram essa felicidade, eu aqui estou.

Yves Saint Laurent (1936-2008)

06 junho 2008

futebol versus sexo

Apesar da euforia e da colossal ilusão dos portugueses, adeptos fervorosos e incondicionais da sua selecção nacional (que já comemoram mesmo antes do campeonato começar), segundo um estudo (publicado pela Agência Lusa a 19 de Maio) realizado pelo Social Issues Research Centre em 17 países europeus (com o apoio em Portugal do Departamento de Sociologia da Universidade do Porto), 83% dos portugueses "troca um jogo de futebol por sexo".

Conhecemos tudo dos nossos jogadores. Onde moram, a família, a mulher platinada, a vizinha do lado, o cão e o piriquito, as roupas de marca, as casas pirosas, os carros com motores potentes e afins. No entanto, na hora do jogo (e apesar de, segundo o mesmo estudo, 73% considerar que o futebol "é uma religião" e 35% referir que é "a coisa mais importante da vida" ), quando todas as cartas são lançadas e os nossos heróis suam as estopinhas, se o instinto soa mais alto… existe sempre a repetição no telejornal para ver…

[Getty Images]


[Confesso que este estado febril, de selecção nacional ao pequeno-almoço, almoço, jantar e ceia estava a deixar-me preocupada, mas afinal somente 17% dos portugueses é que são parvos. Vá lá, podia ser pior…]

04 junho 2008

frozen moment

Sometimes love is hiding between the seconds of your life.*

* do filme CashBack, de Sean Ellis

02 junho 2008

fascínio

Sou fascinada desde sempre pelos Lenços dos Namorados. Designados também como "Lenços de Pedidos", eram o mote para a conquista do pretendente. As cores fortes, as palavras simples pejadas de erros ortográficos, os desenhos estilizados e mal amanhados, o enamoramento, a sedução subliminar, a simbologia romântica [com juras de amor eterno], campestre, náutica e religiosa, fazem destes pequenos lenços quadrados, peças de grande riqueza histórica do nosso país. Pensa-se que as origens desta tradição minhota remontam aos lenços senhoris dos sécs. XVII -XVIII, adaptados mais tarde pelas mulheres do povo, bordando-os com este aspecto característico.

Bai carta felis buando

Nas azas dum pasarinho
Cando bires o meu amor
Dale um avraso e um veijinho

Meu Manel bai pró Brasil
Eu tamen bou no Bapor
Gardada no coração
Daquele qué meu amor


[Não são um mimo?]