30 abril 2008

eternidade

Fizeste-me sentir que ainda era possível abrir portas diante de uma parede sem portas, que talvez não fosse o fim mas o começo de tudo.
O que mais quero de ti é muito mais difícil do que tudo que um corpo pode dar. Quero que me ensines a amar, que ainda vou a tempo. Enquanto o prazer escapa entre os dedos finos sem deixar rasto, o amor, por definição, é eterno. Não tem princípio nem fim porque quem vive no seu presente vive na eternidade.

Pedro Paixão


[ariana luna] Setúbal

29 abril 2008

açafrão

Não gosto de amarelo. Confesso. Essa cor cansa-me os olhos.
Por isso este ano não posso estar na moda. Nesta estação nada é mais fashion que o amarelo. Para onde quer que olhe, lá está. O amarelo invadiu todas as montras. Contaminou a minha cidade e todas as outras.
Apaixonada que sou pelo universo da cor, esta em especial fere-me o olhar, treinado para distinguir milhares de cores Pantone, avaliar provas de impressão, conceber peças gráficas com composições cromáticas pouco previsíveis, articular cor e luz para ambiências apetecíveis.

No entanto, sabendo que para todos os males, existe um remédio, lá descobri um amarelo que passou à tangente no teste: o amarelo-açafrão.
Lembra-me Marrocos, calor, comida indiana, olhares penetrantes, tecidos ao vento.


[Getty Images]

Açafrão deriva do árabe az-zá afran, aglutinado na palavra azzafaran, que nada mais significa que amarelo.

A planta do açafrão provém da família das Iridáceas, também designada açafroeira ou açaflor e, segundo consta, para obter alguns gramas de açafrão, são necessários milhares de flores desta especiaria.

imprevisibilidade

Life was like a box of chocolates.
You never know what you're gonna get. *

[Getty Images]

* do filme Forrest Gump

28 abril 2008

o licor do poema

Na noite em que bebeste medronho, e me pediste a lua, ouvi os deuses cantarem de dentro das pedras. Enquanto me fazias perguntas, e eu te olhava como se nunca te tivesse visto, limitei-me a recolher o canto que subia da terra, como se nele estivesse a resposta que me pedias. E entre o pedaço de seio que subsiste dessa noite, e a lua que não fui buscar, o tempo escorre pelas mãos que guardaram a tua voz, como se fosse um fruto, e a deixaram macerada nos meus ouvidos, para que dela nascesse o licor do poema.

Nuno Júdice

24 abril 2008

incompreensivelmente

O amor não se percebe. Não dá para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz.
Não se pode ceder. Não se pode resistir.

Miguel Esteves Cardoso, in Elogio ao Amor


[Getty Images]

[Hoje acordei com um céu azul e um sol morno que me aqueceu a alma. E só por isso vale a pena querer acordar de manhã bem cedo. Bom fim-de-semana e façam o favor de ser felizes.]

22 abril 2008

inquietude

Admito que gostava de saber, mas apetece-me ir descobrindo...

Se o rio afinal corre para o mar, se os sonhos se prolongam para a infinitude, ou se morrem arrancados à nascença, como frutos rejeitados de uma árvore superior.
Admito que a liberdade não é o bem supremo. É essencial, não supremo.
Suprema é a vida, é o sangue que nos escorre por entre os dedos, é o filho que tomamos nos braços, é o amor sem rede, a paixão ininteligível sem margens.
Supremo é o momento em que nos entregamos sem medo, é o dia em que sentimos estar preso por vontade, é o fogo a tingir de vermelho o meu corpo em chamas, é sorrir sozinho às escuras, é adivinhar um dia glorioso numa manhã tempestuosa, é desejar, é querer, é sobretudo sentir.

Sentir sem reservas. Suprema é a inquietude de não saber o que anuncia o dia de amanhã.

[ariana luna]

[Getty Images]

[Eu tentei, mas não me deixaram. Aliás, tenho provas irrefutáveis como até me incentivaram à lamechice. Por isso, agora não aceito pedidos do livro de reclamações, estamos entendidos?]

21 abril 2008

lamechice

É impressão minha ou este blog anda a resvalar para a fronteira da lamechice?
Para o que me havia de dar!...


[Getty Images]

[Tenho que reverter esta tendência. Férias, é do que eu preciso! Um fim-de-semana prolongado, para ser mais realista…]

diz a verdade

se te perguntarem por nós, sobre
que coisa fazemos quando estamos
juntos, diz a verdade

que deslocamos os cometas sem
querer, as estrelas para desenhos e

a lua garantindo o amor

diz a verdade sobre a intervenção
na cósmica escolha dos casais,
a obrigação de nos obedecer

não fosse o universo desentender quem
somos e favorecer a separação ou,
pior, o não nos havermos conhecido

Poema de Valter Hugo Mãe
Música de Paulo Praça


[Para
escutar com a chuva a bater na janela...]

20 abril 2008

capacidade

O amor não é um sentimento.
É uma capacidade.*

* do filme Dan in real life

18 abril 2008

grifo

seja o amor um grifo esfomeado
cujas garras nos esventram o vazio

devolvendo-nos a vida por um fio
a cada passo do amor anunciado

um pássaro de dor e de prazer
que nos concede as asas p'ra voar

cada vez que o teu corpo se moldar
ao meu corpo pasmo de querer


essa ave de paz e claridade
que plana em céus desconhecidos
é uma instigadora dos sentidos
sem morada, sexo ou idade

habita em todos nós encurralado
um grifo que arranca lá de dentro
o mais dissecado sentimento
que não foi ainda decifrado


[ariana luna]


[Getty Images - manipulada digitalmente]

16 abril 2008

tudo

O amor é um animal selvagem que chega até nós em silêncio. Aloja-se em nós e ocupa cada ponto do nosso corpo, mais, toda a nossa vida. O seu poder de contaminação é total. Basta um olhar. O amor é esse conflito permanente e completo: liberta e agarra, é doçura e amargura, refaz e desfaz, ressuscita e adormece, faz-nos sonhar e confronta-nos com a realidade pura e dura, dá à luz. Mas também tem o poder de nos matar.
No amor oscilamos entre tudo poder ser e nada poder ser, a impossibilidade de tudo. É este o amor, é esta a nossa vida.
Tu sabes, não sabes? Eu sei muito pouco, quase nada. De ti quero aprender tudo. O melhor e o pior. O resto é-me indiferente.

Pedro Paixão, in Ladrão de Fogo

[ariana luna] 2007

[Talvez o amor seja assim, como o mar.
Por vezes com ondas suaves, outras intempestivo, outras ainda a fintar-nos e a atirar-nos ao espumaço. Basta que não percamos este laço incompreensível a que chamam de amor, o desejo e a esperança de encontrar a onda grande e perfeita.]

11 abril 2008

devagarinho...

Não vou pôr-te flores de laranjeira no cabelo
nem fazer explodir a madrugada nos teus olhos.


Eu quero apenas amar-te lentamente
como se todo o tempo fosse nosso
como se todo o tempo fosse pouco
como se nem sequer houvesse tempo.

Soltar os teus seios.
Despir as tuas ancas.
Apunhalar de amor o teu ventre.

Joaquim Pessoa


[Getty Images]

10 abril 2008

cumplicidade

Foi um processo longo e difícil, como sempre o são as aproximações entre duas pessoas habituadas a estarem sozinhas. Primeiro parece fácil, é o coração que arrasta a cabeça, a vontade de ser feliz que cala as dúvidas e os medos. Mas depois é a cabeça que trava o coração, as pequenas coisas que parecem derrotar as grandes, um sufoco inexplicável que parece instalar-se onde dantes estava a intimidade. É preciso saber passar tudo isso e conseguir chegar mais além, onde a cumplicidade – de tudo, o mais difícil de atingir – os torna verdadeiramente amantes.

Miguel Sousa Tavares

08 abril 2008

infância

Hoje não quero ser grande.

Quero voltar a ser pequenina
a ter sonhos tranquilos
a adormecer nos teus braços
a sentir a ternura do teu olhar
a acariciar as tuas mãos sulcadas pelo tempo

a comer torradas cheias de manteiga com cevada

Quero voltar a ser pequenina
a ter nos meus olhos todos os sonhos do mundo
a correr descalça pelos campos com as primas
a tomar banho no ribeiro ao fim da tarde
a fazer colares de flores para o cabelo

Quero voltar a ser pequenina
a sentir o aroma a alfazema nas gavetas
a admirar os teus vestidos de avó-princesa
a escutar atenta tudo o que me ensinavas
sobre as flores, os bichos, a lua e as marés
a desconhecer palavras como saudade e tristeza


Quero voltar a ser pequenina
para te ter à minha beirinha para sempre
e dizer que te amo todos os dias


[ariana luna]

[DeviantART]

[Hoje um sonho menos bom faz-me ter vontade de voltar a ser pequenina.]

07 abril 2008

pergunta-me

Pergunta-me
se ainda és o meu fogo
se acendes ainda
o minuto de cinza
se despertas
a ave magoada
que se queda
na árvore do meu sangue

Pergunta-me
se o vento não traz nada
se o vento tudo arrasta
se na quietude do lago
repousaram a fúria
e o tropel de mil cavalos

Pergunta-me
se te voltei a encontrar
de todas as vezes que me detive

junto das pontes enevoadas
e se eras tu
quem eu via

na infinita dispersão do meu ser
se eras tu
que reunias pedaços do meu poema
reconstruindo
a folha rasgada
na minha mão descrente

Qualquer coisa
pergunta-me qualquer coisa
uma tolice
um mistério indecifrável
simplesmente
para que eu saiba
que queres ainda saber

para que mesmo sem te responder
saibas o que te quero dizer

Mia Couto


[ariana luna] Setembro 2007

[Quando descobri este poema não consegui conter uma lágrima, que se escapou sem que desse conta. Existem poemas assim. Cuja beleza das palavras me aquece nos dias mais frios.]

03 abril 2008

you

Sonho contigo desde que nasci.
Minto. Sonho contigo muito antes de nascer.
Muito antes do mundo ser mundo.
Antes até de existir vida.
Amei-te antes de respirar pela primeira vez e amo-te todas as noites no preciso milésimo de segundo que antecede o adormecer.
[Dizem que por vezes estremeço suavemente antes de adormecer.]

Sonho sobretudo com o teu olhar que tudo diz, muito mais que todas as palavras. E com as tuas mãos que, sem nunca me terem tocado, me tacteiam por fora e por dentro.

Hoje sonhei contigo mas não te vi. Ainda não te consegui ver.
Um dia, quando nos cruzarmos [nesse instante iluminado], a vida ficará suspensa e eu saberei que és tu.
Saberemos os dois.


[ariana luna]

02 abril 2008

aquário

Ontem, alguém com quem tinha trocado somente algumas frases pergunta-me se era do signo de Aquário. Questionei-o sobre o porquê da pergunta, pois a nossa conversa nada tinha a ver sobre o assunto. Para não me alongar na matéria, respondi-lhe efectivamente que era, mas fiquei a pensar porque é que várias pessoas (sim, não foi o primeiro caso) já me perguntaram se era do signo Aquário.
Não percebo nada de assuntos místicos ou astrológicos. Por isso, fiquei sem saber se ser nativa do signo de Aquário é sinal para preocupação. Para agravar a situação, segundo consta, sou aquariana pura, ou seja, Aquário com ascendente em Aquário.

Por isso, quem perceber do assunto, partilhe, sim? Esta aquariana agradece.

01 abril 2008

intervalo publicitário

perception

If the doors of perception were cleansed
everything would appear to man as it is,
infinite.


William Blake


[ariana luna] algures, num fim de tarde de 2007