19 fevereiro 2008

incómodo amor

Com maior ou menor frequência, acontece-nos a todos tropeçar em alguma coisa ou alguém que nos obriga a parar e a pensar. Os acontecimentos à nossa volta, as circunstâncias específicas de cada um, a vida vivida (e quase nunca sonhada) e aquilo que não entendemos levam-nos a fazer perguntas a nós próprios. A tentar perceber, a encontrar um sentido, a avaliar e a medir.
[…] Temos tantas coisas mal arrumadas dentro de nós que a tentação de evitar caminhos é banal e universal.
Acontece que nem sempre podemos "ir à volta", assobiar para o ar ou fingir que não vemos o que estamos a ver e não ouvimos o que estamos a ouvir. Falo, em especial, da voz interior que nos habita e jamais poderemos calar. Falo de sentimentos, portanto.
Alguém disse um dia que "deixar-se amar é aquilo a que todos resistimos mais ao longo da nossa vida" e, de facto, deixarmo-nos amar é de certa forma incómodo. Senão vejamos.
Aceitar amar e ser amado envolve riscos à partida: podemos sofrer com esse amor; podemos achar que não estamos à altura de responder aos seus desafios; podemos sentir posse e ciúmes e podemos ter a angústia de o vir a perder. Para quem, como nós, tem tantos medos e aflições, e, insisto, tantas coisas por arrumar cá dentro, estes e outros riscos são um preço demasiado elevado para pagar pelo amor. Ou não. Tudo depende do preço que cada um está disposto a pagar por aquilo que é verdadeiramente essencial para si.
[…] o tempo e a vida muitas vezes se vão encarregando de nos tirar a capacidade de amar e de sermos amados, na medida em que nos vão enchendo de coisas, interesses, medos, equívocos, situações menos claras, critérios, prioridades e preguiças que se vão instalando na nossa cabeça e no nosso coração e nos impedem de sentir com verdade. Este tempo vertiginoso e esta vida acelerada confundem-nos e alteram a nossa maneira de ser e de estar. Muitas vezes não percebemos o que é importante e não sabemos onde pomos o coração. O pior é que frequentemente as nossas prioridades do coração não acompanham as da cabeça e é este descompasso de racionalmente sabermos o que vem em primeiro lugar, mas emocionalmente não sermos capazes de lhe dar a prioridade absoluta, que, tantas vezes, nos deita a perder.
E é justamente nesta lógica, neste sentido exigente e perturbador, que o amor exerce alguma violência sobre nós. Ou pelo menos alguma pressão, na medida em que nos obriga a perceber que se não há espaço para amar é porque esse espaço está ocupado com outras coisas.
Por tudo isto, só é possível ir mais longe se arriscarmos quebrar paredes e derrubar muros que permitam criar o espaço que nos falta. Ou fazer como fazem os entendidos, que podam as videiras e cortam os ramos para que os frutos cresçam mais e a seiva circule melhor.

Laurinda Alves, Revista Xis – Jornal Público, Abril 2005


[ariana luna] Março 2007

[Encontrei estes dias por mero acaso, este texto numa revista antiga a caminho da reciclagem. Fez-me, acima de tudo, reafirmar a necessidade constante de purificar a mente e limpar o coração perante todas as adversidades, desilusões e pequeninos medos que se vão infiltrando silenciosamente dentro de nós. De continuar a prosseguir de olhar atento, o caminho mais difícil, ambicioso e desafiante que trilhamos na nossa vida: ao interior mais profundo de nós mesmos. Em suma, de não ter medo de viver.]

3 Comments:

At 19 de fevereiro de 2008 às 12:14, Blogger Abelha Rainha said...

Como poderemos não sentir medo de cair se já sentimos a vertigem?
Como podemos não ter medo de amar se já sentimos o nosso coração ser espremido violentamente?
A dor mantém-nos vivos.

 
At 19 de fevereiro de 2008 às 19:39, Blogger Euzinho said...

É difícil podar no sentido que o sentimento por vezes faz-nos cortar ramos que não devíamos, ou que são essenciais ao funcionamento geral.

Uma pequena história mais em resposta ao comentário anterior:
Há uma amiga minha que vê a vida em forma de energia, e segundo ela, a energia que nós gastamos em proteger-mo-nos do amar ou do sentimento é equivalente à energia que gastamos a recuperar se a relação que advém não resultar. Com as agravantes de ficar-se com o SE, para já não falar da perda da experiência.
Nenhum encontro é ocasional....

 
At 20 de fevereiro de 2008 às 21:35, Blogger Paradoxo said...

às vezes é necessário cortar algumas folhas para dar lugar a outras.

fica bem!

 

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