28 fevereiro 2008

vou fechar os olhos...

e imaginar que estou aqui.

[Getty Images]

[Não me acordem, sim? Agora estou a sonhar...]

27 fevereiro 2008

apaixonadamente

Entrou no café habitual e só parou quando estava à sua frente. Disse-lhe que havia meses que o perseguia só para estar perto dele. Que ele era o ser mais perfeito que alguma vez tinha encontrado. Que o coração doía-lhe quando não o encontrava ali. Que sonhava dormir com ele. Que era paixão o que sentia por ele.

Ele pegou na mão dela. A sua segurança aterrorizava-o. Mas não conseguiu deixar de amá-la naquele exacto momento. Foram juntos embora. Nesse dia e nos seguintes. Tornaram-se inseparáveis. Até um dia de manhã em que ele reparou que ela não levava a aliança no dedo. Nesse mesmo dia encontrou-a a beijar um homem no parque onde tantas vezes tinham almoçado juntos.

Foi calmamente para casa esperar que ela chegasse. Entrou na cozinha, pegou numa faca do faqueiro que lhes tinha sido oferecido como presente de casamento e sentou-se no maple do quarto à espera dela.

Teresa Sá, in revista Attitude #19


[Teresa Sá]

25 fevereiro 2008

viver devagar

Tracei no início do ano [como quase toda a gente] alguns objectivos [poucos e exequíveis; deixei-me de utopias] que pretendo seriamente concretizar.
Um deles é: viver devagar.
Ter tempo de qualidade para mim e para aqueles que amo e desfrutar de toda a beleza que a vida me concede a cada nascer do sol.
Tempo para retirar da gaveta sonhos antigos e projectos que me fazem sorrir sozinha às escuras.

Tempo para conhecer cada rua do meu coração, para percorrer cada avenida do meu pensamento, para trilhar cada caminho do meu corpo, para revisitar cada praça dos meus desejos mais recônditos.

Tempo para viver, não para sobreviver a cada dia "a todo o vapor" numa vertigem de trabalho, pressão e ansiedade. Tempo para parar e reflectir.
Viver devagar nos dias de hoje, paradoxalmente, exige disciplina.
Rapidamente somos tomados pelo stress, arrastados numa dinâmica incessante de informação audiovisual; bombardeados com solicitações, mergulhados no vazio de uma vida sem tempo sequer "para respirar".

Viver devagar não significa lentidão ou tão-pouco preguiça, mas em excluir o que não é verdadeiramente importante e encontrar a velocidade ideal para saborear cada momento, o ritmo adequado para me encontrar em harmonia com o mundo e não sentir que a vida me está a passar ao lado.

Tempo para os livros que se acumulam na estante, para os filmes que pretendo ver, as músicas que quero escutar. Tempo para conhecer todos os lugares, povos e culturas que admiro ou me fascinam. Tempo para as férias merecidas.
Tempo para os areais que não senti sob os meus pés, para cada pôr-do-sol que me espera, para cada lua-cheia reflectida no mar.

Tempo para as aulas de Hatha Yoga, para o curso de mergulho, tempo para desafiar os meus limites.


[ariana luna] Outubro 2007

Tempo para ficar de mãos dadas em silêncio, sem pensar em nada. Absolutamente nada. Tempo para voar, para amar. A sentir-me viva e em paz.
Somente a sentir o calor da tua mão.

21 fevereiro 2008

janelas

Quando um coração se fecha, faz muito mais barulho que uma porta.
António Lobo Antunes

[ariana luna] Óbidos, Setembro 2007

[Eu cá prefiro janelas.
Abertas sobre um mar imenso a invadir-me os sentidos.
Sobre jardins de violetas e lavanda.
Sobre pomares de citrinos.
Abertas sobre planícies alentejanas.
Janelas abertas ao mundo.
]

19 fevereiro 2008

incómodo amor

Com maior ou menor frequência, acontece-nos a todos tropeçar em alguma coisa ou alguém que nos obriga a parar e a pensar. Os acontecimentos à nossa volta, as circunstâncias específicas de cada um, a vida vivida (e quase nunca sonhada) e aquilo que não entendemos levam-nos a fazer perguntas a nós próprios. A tentar perceber, a encontrar um sentido, a avaliar e a medir.
[…] Temos tantas coisas mal arrumadas dentro de nós que a tentação de evitar caminhos é banal e universal.
Acontece que nem sempre podemos "ir à volta", assobiar para o ar ou fingir que não vemos o que estamos a ver e não ouvimos o que estamos a ouvir. Falo, em especial, da voz interior que nos habita e jamais poderemos calar. Falo de sentimentos, portanto.
Alguém disse um dia que "deixar-se amar é aquilo a que todos resistimos mais ao longo da nossa vida" e, de facto, deixarmo-nos amar é de certa forma incómodo. Senão vejamos.
Aceitar amar e ser amado envolve riscos à partida: podemos sofrer com esse amor; podemos achar que não estamos à altura de responder aos seus desafios; podemos sentir posse e ciúmes e podemos ter a angústia de o vir a perder. Para quem, como nós, tem tantos medos e aflições, e, insisto, tantas coisas por arrumar cá dentro, estes e outros riscos são um preço demasiado elevado para pagar pelo amor. Ou não. Tudo depende do preço que cada um está disposto a pagar por aquilo que é verdadeiramente essencial para si.
[…] o tempo e a vida muitas vezes se vão encarregando de nos tirar a capacidade de amar e de sermos amados, na medida em que nos vão enchendo de coisas, interesses, medos, equívocos, situações menos claras, critérios, prioridades e preguiças que se vão instalando na nossa cabeça e no nosso coração e nos impedem de sentir com verdade. Este tempo vertiginoso e esta vida acelerada confundem-nos e alteram a nossa maneira de ser e de estar. Muitas vezes não percebemos o que é importante e não sabemos onde pomos o coração. O pior é que frequentemente as nossas prioridades do coração não acompanham as da cabeça e é este descompasso de racionalmente sabermos o que vem em primeiro lugar, mas emocionalmente não sermos capazes de lhe dar a prioridade absoluta, que, tantas vezes, nos deita a perder.
E é justamente nesta lógica, neste sentido exigente e perturbador, que o amor exerce alguma violência sobre nós. Ou pelo menos alguma pressão, na medida em que nos obriga a perceber que se não há espaço para amar é porque esse espaço está ocupado com outras coisas.
Por tudo isto, só é possível ir mais longe se arriscarmos quebrar paredes e derrubar muros que permitam criar o espaço que nos falta. Ou fazer como fazem os entendidos, que podam as videiras e cortam os ramos para que os frutos cresçam mais e a seiva circule melhor.

Laurinda Alves, Revista Xis – Jornal Público, Abril 2005


[ariana luna] Março 2007

[Encontrei estes dias por mero acaso, este texto numa revista antiga a caminho da reciclagem. Fez-me, acima de tudo, reafirmar a necessidade constante de purificar a mente e limpar o coração perante todas as adversidades, desilusões e pequeninos medos que se vão infiltrando silenciosamente dentro de nós. De continuar a prosseguir de olhar atento, o caminho mais difícil, ambicioso e desafiante que trilhamos na nossa vida: ao interior mais profundo de nós mesmos. Em suma, de não ter medo de viver.]

14 fevereiro 2008

hoje [especialmente hoje]

Fazes-me falta.

09 fevereiro 2008

simplicidade

Se podes olhar, vê.
Se podes ver, repara.

Livro dos Conselhos

Para a R., pela nossa conversa sincera e afectuosa de ontem

Somos feitos de carne, água e sonhos.

De esperanças, ilusões, memórias e intimidades.
Olhar alguém apenas pelo que é, mostra-se grande parte das vezes uma tarefa inglória. Conseguimos realmente conhecer alguém?
[Alguma vez me conseguiste ver quando me olhavas? Saber como sou verdadeiramente?]
Não ver somente a pele, a voz, os gestos, o olhar, a forma como fala ou caminha, as expressões, a imagem que vamos construindo do que pensamos ou escutamos sobre determinada pessoa.
Será que conseguimos olhar alguém que amamos, de coração limpo e olhar isento?

[O que tentaste ver para além do azul dos meus olhos?]

Um mimo é somente isso, um mimo. Não tem que querer dizer mais nada.
Um abraço pode ser só a falta dos teus braços. Nada mais.
Interpretamos demasiado. Analisamos e esmiuçamos as coisas mais simples.
Fazemos do nosso umbigo o centro do universo.

Não tentamos saber como o outro é verdadeiramente.
Deixamos que nos plantem cá dentro sementinhas de incerteza.

Será que tentamos olhar com o coração aqueles que amamos?
[Viste-me através do filtro dos teus olhos, minados por anos de repressões, desilusões e pelo medo de construir um amor feliz e transparente.]
Conhecer os seus desejos, os seus medos, ajudá-lo a crescer como pessoa.
[Tentaste saber o que me faz feliz? Saber de que cor são os seus sonhos? O que me faz sorrir por dentro? O que me dá asas?]
É difícil, eu sei. Tão extraordinariamente difícil e por isso mesmo tão precioso.

No amor [em qualquer das suas formas ou expressões] o importante não é encontrar [seja o que se pense que se procura] mas a abertura [da mente e do coração] para a possibilidade da descoberta.
Do outro e de si mesmo.

07 fevereiro 2008

é tão bom!...

Vale a pena ver
castelos no mar alto
Vale a pena dar o salto
pra dentro do barco
rumo à maravilha
e pé ante pé desembarcar na ilha
Pássaros com cores que nunca vi
que o arco-íris queria para si
eu vi
o que quis ver afinal

É tão bom uma amizade assim
Ai, faz tão bem saber com quem contar
Eu quero ir
Ver quem me quer assim

É bom para mim e
É bom pra quem tão bem me quer


Vale a pena ver
o mundo aqui do alto
vale a pena dar o salto
Daqui vê-se tudo
às mil maravilhas
na terra as montanhas
e no mar as ilhas

Queremos ir à lua mas voltar
convém dar a curva
sem se derrapar
na avenida do luar


Para escutar, sorrir e saltarmos direitinhos prá infância
É tão bom, Sérgio Godinho

04 fevereiro 2008

caminho

[…]
Ninguém me peça definições!

Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

José Régio


[ariana luna] Parque Natural das Serras D'Aire e Candeeiros, Janeiro 2007