31 janeiro 2008

;)

O teu cabelo parece uma seara ao sol numa manhã de Primavera!...

[Ultimamente são poucas as coisas que me têm surpreendido, mas confesso que desta vez me apanharam desprevenida!...]

28 janeiro 2008

bolotas

Não via bolotas fazia bastante tempo.
Lembro-me de lhes achar imensa graça quando era ainda uma menina reguila. Gostava da forma macia, da cor quente e do chapelinho característico.
Recordo com ternura o carvalho enorme [talvez nem fosse assim tão grande, mas a mim parecia-me gigantesco] bem lá no fundo do quintal imenso [talvez não tão imenso, mas a mim parecia-me interminável] da minha avó.



[ariana luna] Parque Natural das Serras D'Aire e Candeeiros, Janeiro 2007

[Encontrar estas bolotas no meio da serra, foi reencontrar a menina reguila, intrépida, de olhar observador e de coração repleto de alegria.]

21 janeiro 2008

fogo preso

Cala-te, a luz arde entre os lábios,
e o amor não contempla, sempre
o amor procura, tacteia no escuro,
essa perna é tua?, esse braço?,
subo por ti de ramo em ramo,
respiro rente à tua boca,
abre-se a alma à língua, morreria
agora se mo pedisses, dorme,
nunca o amor foi fácil, nunca,
também a terra morre.

Eugénio de Andrade


[ariana luna] Janeiro 2008

[Siouxsie, If it doesn't kill you]

16 janeiro 2008

quentes e boas

Apetece-me castanhas. Não daquelas cozidas ou assadas em casa, saboreadas no conforto do lar.
Apetece-me castanhas compradas na Baixa, na Rua de Santa Catarina.
Assadas naqueles carrinhos antigos, quase todas podres e pequeninas e embrulhadas em folhas de jornal com notícias antigas e desbotadas.
Das dez míseras castanhas do cone de papel só uma ou duas se aproveitam. Mas essas, pequenas e a queimar os dedos, sabem-me tão bem…
O bulício das ruas, o cheiro do fumo no ar, as pessoas apressadas a correr para lugar nenhum, os velhos a olhar o infinito para matar o tempo, as crianças a terem urgência em crescer depressa, a tal árvore de Natal (maior do que sei lá o quê) que não cheguei a pôr a vista em cima, o cheiro a Inverno…

[Um fim de tarde destes vou matar saudades.]


[ariana luna] Gerês, Janeiro 2008

09 janeiro 2008

this magic moment

Chegaste com três vinténs
E o ar de quem não tem
Muito mais a perder

Tu não sabias se era eu.
Eu não sabia se eras tu.
Não sabíamos os dois que era amor que trazíamos entranhado nas mãos, quando o coração cavalgava sem freio no peito na primeira vez.
Não sabíamos o que dizer. O que fazer. O que pensar.
Sabíamos somente que sentíamos. E isso bastava-nos.

Levantaste-te suavemente para não me acordar e voltaste um par de horas depois [talvez mais] com o mel no olhar e o mar no coração.
Acordaste-me delicadamente e eu puxei-te para mim.
Trazias os lábios roxos e as mãos trémulas [que aqueceste entre as minhas pernas; estremeci].
Enroscaste-te a mim. Enroscamo-nos um no outro. No corpo e no pensamento um do outro.
Naquele momento [naquele preciso momento] não existia mundo, casa, cama, janela aberta sobre um céu azul [quase tão azul como o olhar que derramava sobre ti], lençóis revolvidos, sequer existia dia. Não existia passado ou futuro. Não existia vida antes de nós.

Naquele preciso momento existíamos somente nós os dois. Sobressaía a nossa luz.
O meu corpo.
Assustado pela descoberta e pela dádiva.
O teu corpo.
Gélido e feliz.

ariana luna


[ariana luna] Paraíso, 2007

para escutar
[Lou Reed, This Magic Moment]

07 janeiro 2008

búzio mar

o búzio abriu o peito p'la areia
sacudiu a brisa para longe da sua cegueira
e arrastou-se corpo adentro pelo profundo mar
rodopiou na água turva de verde
alisou os sulcos da sua pele
extasiou os peixes que sorviam a sua dança

cansado da viagem pelo interior de si
o búzio parou
com o medo suspenso na escuridão da sua casa
temeu p'la luz mas arriscou a saída
descerrou os olhos e pasmou de tanta cor

o búzio era agora mais mar
mais vida, mais búzio
gemeu p'la beleza que o cegava
e recolheu para dentro de si uma vez mais
mas só por uns instantes
a tentação por novos mundos já o tinha preenchido

ariana luna