26 novembro 2007

fragilidade

Frágil – delicado; que se despedaça ou quebra facilmente; precário; efémero; franzino; debilitado; sem solidez; pouco resistente.

Não é permitido a ninguém apresentar sinais, gestos, palavras ou sequer pensamentos que expressem fragilidade. Não é sequer permitido nos tempos modernos não se ser surpreendentemente bem-sucedido profissionalmente, culturalmente actualizado, amigo disponível, amante irrepreensível, dotado de uma personalidade sempre cool, bem-humorado, frequentador de todos os locais conhecidos, praticante de todos os desportos com nomes bizarros e apesar de tudo, com imenso tempo livre.
Não é recomendável expressar cansaço ou vulnerabilidade ou sequer dizer que se está um "nadinha triste" sem nos darem logo o nome de 3 psicoterapeutas fabulosos que nos farão mergulhar nos caminhos insondáveis da nossa psique e descobrir a fórmula mágica da alegria. Somente porque é indubitavelmente mais simples conjugar os verbos escutar e compreender na terceira pessoa. Mas, e apesar de tudo, o que está expressamente proibido é dizer que "um abraço não era mau de todo" e que "uma palavra carinhosa era ouro sobre azul".
Ninguém quer um ser "carente" (ainda vou ter 7 anos de azar por dizer esta palavra!) do lado. Nunca. Jamais em tempo algum.
Não somos emocionalmente estruturados para conviver com o sofrimento alheio. Passamos demasiado tempo a olhar para o nosso umbigo, as nossas necessidades, os bens materiais que precisamos imperiosamente de adquirir a todo o custo, as viagens que temos de fazer antes de morrer e todo o prazer intangível que temos que sentir durante a vida.
Sinto que grande parte das pessoas (felizmente não todas) reconhece a fragilidade como um vírus altamente contagioso. Por isso, antes que o mesmo actue dentro de si, corre o mais rápido possível para a primeira pessoa sorridente que encontram a fim de se imunizarem.


[ariana luna] Setúbal, Agosto 2005

[Se olharem bem, poderão observar na extensa raça humana pessoas altamente felizes e bem sucedidas que aprenderam a maravilhosa técnica de fingirem convenientemente e algumas não tão brutalmente felizes que às vezes cometem o fatal erro de serem humanas.]

23 novembro 2007

insustentável leveza

Sinto-me leve. Tão leve que por vezes sinto que flutuo.
Deixei partir os fantasmas que me faziam sentir o peso do mundo sobre os meus ombros. [Não precisei que ninguém mos levasse, como o Pedro Abrunhosa.]

Saíram pelo seu próprio pé. Não protestaram. Resignaram-se e saíram.
Prometeram não voltar.
À medida que falava, eles abandonavam-me. Um a um. Suave e delicadamente. Como se as minhas palavras fossem em certa medida o mote para a sua saída.
Já não carrego o peso do mundo. Adormeci com uma serenidade que há muito tinha desertado das minhas pálpebras.

Acordei com um olhar tranquilo e desejosa de sentir o sol (embora tímido) no caminho para a minha aula de Yoga.
Foram palavras leves como bolas de sabão.


[Ainda que não as tivesses escutado.]

21 novembro 2007

crazy mary

Quando os dias se sucedem frenéticos, o cansaço me amolece, o telefone não pára e as constantes solicitações me atordoam, fecho os olhos por um instante apenas e escuto-te.
fecho os olhos
[ariana luna] Julho 2007

[A voz trémula, as mãos delicadas e o olhar perdido por entre as ondas.]

19 novembro 2007

gato

[ariana luna] 1995

[Hoje queria ser um gato. Subiria ao telhado mais alto e ficaria a olhar a lua reflectida no rio silencioso.]

15 novembro 2007

cansaço

O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

Álvaro de Campos

12 novembro 2007

alfabeto

quero ler-te por dentro
desfolhar-te, página por página, o teu corpo em branco
e sentir os caracteres do teu pensamento
a desenhar a nossa estória por contar

quero ler-te devagarinho
tal como os livros de que se gosta muito
e que não queremos que acabem
para saborear vagarosamente cada frase

quero ler-te de trás para a frente
desordenadamente, num ritmo inventado por nós
numa amálgama de reticências e palavras baralhadas

quero ler-te no dialecto do sentir
conjugar o verbo descobrir na tua pele e
recitar-te baixinho, todas as letras tacteadas em nós…


ariana luna

10 novembro 2007

quero

Quero ver as cores que tu vês
Pra saber a dança que tu és
Quero ser do vento que te faz
Quero ser do espaço onde estás

Deixa ser tão leve a tua mão
Para ser tão simples a canção
Deixa ser das flores o respirar
Para ser mais fácil te encontrar


Fazes muito mais que um sol


Tiago Bettencourt & Mantha, in Canção Simples

08 novembro 2007

girassóis

Gosto de girassóis. [Quase tanto como de papoilas e violetas.]

[Estes foram oferecidos pela M. no meu último aniversário. Apesar de esse dia ter sido um dos mais difíceis que guardo na memória, estes girassóis iluminaram-no como pequenos sóis, efusivos mas delicados, alegres e ternurentos, para me recordar que atrás de uma nuvem negra, existe sempre altivo, um sol que me aquece por dentro.]

07 novembro 2007

zen

Regressei ao Yoga. Sentia falta. Muita.
Falta da evolução e constante correcção de uma aula. [Sozinha nunca é a mesma coisa!] Falta dessa sensação única de equilíbrio e plenitude interior.


[De me consciencializar verdadeiramente do meu corpo em sintonia com a minha mente.]

05 novembro 2007

aldeia da roupa branca

[ariana luna] Peniche, Agosto 2007

Se pensam que os sinais de trânsito apenas servem para regulamentar a organizada circulação de veículos e peões, desenganem-se!
Tem como principal serventia (pelo menos em Peniche) de lavandaria arejada!
Desde a saia da moda, o avental último grito, passando pelo cuecão de gola alta até ao famoso soutien (que tapa até ao pescoço), tudo areja e seca ao sol.

[ariana luna] Peniche, Agosto 2007

[Se o filme "Aldeia da roupa branca" fosse rodado agora, já se está mesmo a ver onde seria o cenário!...]