24 agosto 2007

under my skin

Esta noite invadiste o meu sono sem pedir licença. Alojaste-te na mais alta varanda do meu pensamento e ficaste ali. A espiar-me os passos. [Não me doías cá dentro fazia muito tempo. Não me inundavas as artérias desde que te comprimiram até à asfixia dentro do meu peito.]
Consegui definir-te claramente as mãos, a boca, a figura delicada e leve como uma nuvem. Nunca te vi o olhar. A forma, a cor ou a expressão. [Como se a minha imaginação se retivesse e não te conseguisse atribuir uns olhos.] Permaneceste em silêncio. Imóvel. Fitando-me fixamente com uns olhos inquiridores que nunca consegui vislumbrar. [Como se a gritar por dentro a minha rejeição.]

Mataram-te do meu pensamento à queima-roupa.

[Nunca mais consegui sonhar-te.] Imaginar-te sequer uma hipótese, uma possibilidade.
Desertas-te de dentro de mim, sem que conseguisse proteger-te da minha dor. Verrumei-te do meu cérebro com o estilete da negação. Sonhei contigo durante noites intermináveis. Chorei-te nas horas infinitas, recolhida no meu casulo. E um dia [sôfrega de luz] decidi escapar da escuridão e silenciar-te para regressar em liberdade.

Não consigo pensar em ti. Sequer falar de ti. [Sonhar contigo.] Tenho que limpar as minúsculas faúlhas espalhadas no meu corpo, que me embaciam o olhar de tempos a tempos. Preciso apagar definitivamente esta réstia de cinza incandescente que tentaste atear esta noite.
Não passaste de um devaneio. De uma esperança. De uma promessa de claridade. Uma equação perfeita à espera de um momento mágico.

Nunca passaste de um desejo e [sem o saberes] já te tinhas alojado no refúgio mais definitivo do meu coração…


[Depois de muito tempo, sinto-me serenamente feliz. Sem a voracidade de outros tempos em construir castelos de areia. Não projecto os dias que permanecem no recôndito segredo dos meus passos vindouros. Estou a aprender a viver um dia de cada vez.]