30 abril 2007

A voz de José

"E se inventássemos o mar de volta, e se inventássemos partir, para regressar. Partir e aí nessa viajem ressuscitar da morte às arrecuas que me deste. Partida para ganhar, partida de acordar, abrir os olhos, numa ânsia colectiva de tudo fecundar, terra, mar, mãe... Lembrar como o mar nos ensinava a sonhar alto, lembrar nota a nota o canto das sereias, lembrar o depois do adeus, e o frágil e ingénuo cravo da Rua do Arsenal, lembrar cada lágrima, cada abraço, cada morte, cada traição, partir aqui com a ciência toda do passado, partir, aqui, para ficar...

Assim mesmo, como entrevi um dia, a chorar de alegria, de esperança precoce e intranquila, o azul dos operários da Lisnave a desfilar, gritando ódio apenas ao vazio, exército de amor e capacetes, assim mesmo na Praça de Londres o soldado lhes falou: Olá camaradas, somos trabalhadores, eles não conseguiram fazer-nos esquecer, aqui está a minha arma para vos servir. Assim mesmo, por detrás das colinas onde o verde está à espera se levantam antiquíssimos rumores, as festas e os suores, os bombos de lava-colhos, assim mesmo senti um dia, a chorar de alegria, de esperança precoce e intranquila, o bater inexorável dos corações produtores, os tambores. De quem é o carvalhal? É nosso! Assim te quero cantar, mar antigo a que regresso. Neste cais está arrimado o barco sonho em que voltei. Neste cais eu encontrei a margem do outro lado, Grandola Vila Morena. Diz lá, valeu a pena a travessia? Valeu pois.

Pela vaga de fundo se sumiu o futuro histórico da minha classe, no fundo deste mar, encontrareis tesouros recuperados, de mim que estou a chegar do lado de lá para ir convosco. Tesouros infindáveis que vos trago de longe e que são vossos, o meu canto e a palavra, o meu sonho é a luz que vem do fim do mundo, dos vossos antepassados que ainda não nasceram. A minha arte é estar aqui convosco e ser-vos alimento e companhia na viagem para estar aqui de vez. "


José Mário Branco, 1982

29 abril 2007

ternura

Desvio dos teus ombros o lençol

que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do Sol,
quando depois do Sol não vem mais nada...

Olho a roupa no chão: que tempestade!
há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
em que uma tempestade sobreveio...

Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...

Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!

David Mourão-Ferreira


[Reconheço, a custo, que as relações humanas da sociedade actual se pautam pelo egoísmo, conveniência e ambição.
No entanto e apesar de tudo, continuo a pensar que só um amor assim faz sentido.]

26 abril 2007

acontece...

Foto: Catarina Cruz

"Apaixonei-me num momento desprevenido. Estava a ver um jogo de futebol, ela meteu-se à frente do televisor e, em vez de lhe dar um grito, não reparei, pela minha saúde, fiquei ali especado a olhar para ela. Um minuto de exposição foi quanto bastou. Não se pode olhar muito tempo para raparigas bonitas sem este género de merdas acontecer."

Miguel Esteves Cardoso, in O Amor é fodido


[Existem momentos verdadeiramente cinematográficos. Mágicos, sublimes, inquietantes. Transcendem qualquer explicação racional.
Exactamente como a vida deve ser: única.]

24 abril 2007

liberdade

Quando a tristeza é um murro no estômago e um vómito contido.
Quando as lágrimas rolam sem as conseguir reter como areia por entre as mãos.
Quando a saudade é um bicho enfurecido, amedrontado cá dentro.
Quando as noites parecem infinitas repetições de fotogramas já gastos.
Quando tudo se revolve à velocidade da luz no pensamento, volto à superfície como um náufrago.

Reconheço a luz como uma miragem, os poucos amigos verdadeiros e compreendo, ainda atordoada por mais uma morte, que o melhor de tudo é ter um sonho – novinho em folha – à espera de ser sonhado.

À espera de ser vivido.

23 abril 2007

viagens...

[Sonhem sem limites. Imaginem a viagem perfeita...]

21 abril 2007

croma

azul a derreter em banho-maria
vermelho a escorrer suculento p´los dedos
amarelo a secar ao sol sobre o telhado
verde a refrescar à sombra da varanda
branco ao vento preso na árvore mais alta
magenta incandescente no sótão adormecido
negro perdido p'los caminhos agrestes
violeta a saltitar nas videiras enroscado
rosa adormecido em posição fetal
castanho a germinar no parto da terra
laranja estalando de espanto nos cabelos
púrpura seduzindo os néons da cidade
cinzento mudo de pé na estrada deserta

todas as cores a uivar dentro de mim


ariana luna

20 abril 2007

M6

[Este fim-de-semana - se o tempo permitir - vou namorar a minha M6.
Para quem defende o digital incondicionalmente, um dia faço-lhe um desenho.]

Amor

"Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo? O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade.

Amor é amor. É essa a beleza. É esse o perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto.

O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende."

Miguel Esteves Cardoso, in O amor é fodido

19 abril 2007

Sabedoria

"Pensar, ainda assim, é agir. Só no devaneio absoluto, onde nada de activo intervém, onde por fim até a nossa consciência de nós mesmos se atola num lodo - só aí, nesse morno e húmido não-ser, a abdicação da acção competentemente se atinge. Não querer compreender, não analisar... Ver-se como à natureza; olhar para as suas impressões como para um campo - a sabedoria é isto."

Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego

as minhas tulipas


[Este ano ergueram-se altivas e salpicaram de vermelho sangue os canteiros do meu jardim encantado.]

17 abril 2007

pudesse eu ser

pudesse eu ser outra coisa senão eu
seria um poema
livre e leve
que de tão aparentemente simples
feito de lâminas transparentes
parece verrumar-nos a cada sílaba

um poema de Eugénio feito nuvem
quiçá de Al Berto feito carne
mas um poema de desejo e de silêncio
sem artifícios gramaticais ou fonéticos
mas que arrancasse do peito
o estremecer de uma verdade descoberta

pudesse eu ser Eugénio por uma hora
Al Berto por um instante apenas
e saberia o que sentiam os poetas
que despertaram em mim esta singular vontade
de fazer amor com as palavras

[quando morrer
vistam-me com as páginas dos livros que amei
e deixai-me partir
livre e leve…]


ariana luna

primavera

[Com este sol convidativo lá fora, está a ser difícil não me escapulir para um gelado à beira-mar. Vou tentar resistir!...]

Pai

No meu jardim florescem árvores de fruto que perfumam a minha infância.
Foram plantadas pelas mãos sábias do meu pai, cujos frutos me são dados com amor.

16 abril 2007

Indy

Para a Margarida, pela perda do seu grande amigo

Faz amanhã uma semana que o Indy – o gato que comigo vivia ia p'ra seis anos – morreu. Só agora arranjei espaço nos meus dedos para escrever para ele.

Quando deixaste de respirar às cinco da tarde, não me apercebi de imediato quantos gestos iriam ser invocados. Onde estás quanto me não esperas à porta no tapete de sisal? Onde te encontras quanto um gato mia no quintal? Onde comeste quanto não apareces à hora do jantar? Porque chamas por mim? Porque continuas a respirar no corredor? Porque continuo a levantar-me durante a noite para ver se já chegaste dos teus passeios nocturnos?

Cultivei-te junto à laranjeira, onde o sol bate p'la tardinha e onde te enrolavas na secreta preguiça dos felinos. Embrulhei-te num tecido branco e pus-te a dormir na terra quente pelo sol dessa quarta feira. Meia hora antes de deixares de respirar este ar tão entranhado de imperfeitos momentos, afaguei-te o pêlo na certeza que seria a última hora desta tua vida. Não conseguiste traçar um último gesto, mas sabias – eu sei que sabias – que era eu que ali estava para me despedir.

Na última noite, arrastaste-te até à porta da minha ilha escondida e esgadanhaste para eu te salvar do medo da partida.
Eu sabia que era a última noite. Tu sabias que era a última noite. Estive a escrever no computador, contigo ao colo embrulhado numa camisola azul. Olhavas-me com um olhar embaciado. Não sei se me verias nitidamente, mas em seis anos construíste a minha imagem... Fincaste as unhas na minha camisola. Não querias que te abandonasse à tua dor e assim o fiz. Fiquei muita quieta junto a ti. Respiravas tão lentamente que pensei que não resistirias à manhã seguinte.
Esperaste para nos lançares um último olhar – tão dócil como sempre – e descansaste em paz, com as tulipas cor de fogo que te coloquei sobre a terra húmida da noite.


ariana luna, 1998

13 abril 2007

Nuovo Cinema Paradiso

Nuovo Cinema Paradiso, 1989
Realizador: Giuseppe Tornatore

[Este fim de semana fico por cá. E vou (re)ver um dos filmes da minha vida. Porque gosto. Porque uma das pessoas que mais gosto ainda não viu.]

Azenhas do Mar

Foto: Paulo Azevedo

Um fim-de-semana destes escapo-me para este paraíso.
Para um cappuccino a olhar a falésia.
Para caminhar com o vento a brincar com os cabelos.
Para carregar o pensamento de imagens genuínas.
Para viver em êxtase, tranquilamente.


ADENDA
Vou pegar nos amigos [os verdadeiros] e vou levá-los comigo.

12 abril 2007

nevoeiro

Adoro o nevoeiro.
Adoro o nevoeiro no meu Porto.
Percorrer bem cedo a marginal e trespassar o nevoeiro leitoso da manhã.
Correr entre o nevoeiro. Por entre o Porto que conheço por dentro e por fora.
Sentir intimamente essa promessa de luz a romper os milhões de gotículas.

As gentes simples e genuínas. O sotaque malandro e despretensioso.
As mãos dos velhos, o riso das crianças.
As casas arruinadas em cascata por sobre o rio.
A vida.
Tal como ela é.

11 abril 2007

on/off

"Eu vou aonde me leva o meu pensamento. Talvez chegue à paz do meu coração."

Dzore Drzic

[Se o meu pensamento tivesse um interruptor, para o desligar sempre que necessário ludibriar as ideias, seria assim. Minimal, clássico, intemporal, tal como esta recriação contemporânea do modelo de 1930 concebido na Bauhaus, de Dessau.]

10 abril 2007

substância

"Admiro as inteligências límpidas. Mas o que é o homem se lhe faltar substância?"

Antoine De Saint- Exupéry


[Se encontrarem algum espécimen intacto para experiência científica, avisem, sim? É que às vezes penso que emigraram todos para a Sibéria!...

Quando dispostos em matilha, para além de devorarem todos os campeonatos de futebol e babarem perante todos os carros velozes, quando confrontados com a ideia de articularem outro tipo de conversa, proferem com olhar perplexo: "Queres que fale de quê? De gajas?" Poupem-me!...
]

09 abril 2007

inocência

"Ser inocente é ter um olhar longo e aberto, mas ser pequeno. É estar – ombro a ombro – com todo o universo e ser grande, ter brilho e voz (e vida) só porque se é precioso para alguém. Ser inocente é deixar que a beleza nos atropele, um ror de vezes, a razão. E sempre que isso se descobre, nunca prometer que se deixa de escutar, primeiro, o que se sente. Ser inocente é estar aberto. Mesmo que isso crie um burburinho, e ponha tanto em dúvida tudo aquilo que suponhamos saber que, no entanto, nesse rebuliço o coração se engasgue e nos deixe descalços. Talvez, por tudo isso, só os sábios sejam inocentes. E, por mais que nos comova a sensibilidade em tudo aquilo que eles sabem, é o encantamento com que deixam que a vida os corteje que nos toca."

Eduardo Sá

[Porque, apesar de tudo, quero continuar a preservar-me de toda a escuridão que polui os olhares iluminados.]

08 abril 2007

palavra

reinvente-se a palavra por dentro
virada do avesso, esventrada à nascença;
não tenhamos clemência do seu significado
ou conteúdo, sequer dos livros que a perfilharam

dissequemos sílaba a sílaba para lhe eliminar o lodo
da incessante repetição dos dias, da banalidade
do seu sentido óbvio e comezinho

mudemos a pele à palavra, a sua voz interior,
um novo miolo no seu cadáver já gasto para
que se ilumine o seu corpo transmudado

tudo para que, quando lida poro a poro
não tenha esta sensação de vazio
cada vez que a escrevo


ariana luna

07 abril 2007

the end

Ponto Final.
Parágrafo.

[Mesmo que signifique transmudar-me.]

03 abril 2007

solidão

"Solidão não é a falta de gente para conversar, namorar, passear ou fazer sexo…
Isto é carência.
Solidão não é o sentimento que experimentamos pela ausência de entes queridos que não podem mais voltar…
Isto é saudade.
Solidão não é o retiro voluntário que o destino nos impõe compulsoriamente para que revejamos a nossa vida…
Isto é um princípio da natureza.
Solidão não é o vazio de gente ao nosso lado…
Isto é circunstância.
Solidão é muito mais que isto.
Solidão é quando nos perdemos de nós mesmos e procuramos em vão pela nossa Alma."


Chico Buarque de Holanda

02 abril 2007

cá dentro

Tenho um buraco aberto no lugar do coração.