29 março 2007

pudesse eu...

Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo,
ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

Álvaro de Campos

20 março 2007

...

Levar-te à boca,
beber a água
mais funda do teu ser

se a luz é tanta,
como se pode morrer?

Eugénio de Andrade

15 março 2007

Alexitimia

É um termo que se aplica a pessoas com uma marcante dificuldade para identificar ou descrever os seus sentimentos.
Deriva da aglutinação de lexis (ausência) + thimos (emoção).

[Não gosto de rotular ninguém, mas existem termos que nos ajudam a explicar algumas coisas.]

13 março 2007

Le Petit Prince

É simples, o segredo: só se vê bem com o coração.
O essencial é invisível para os olhos.
Foi o tempo que perdeste com tua rosa, que fez tua rosa tão importante.

Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.
Tu és responsável pela rosa...
- O essencial é invisível para os olhos, repetiu o principezinho, a fim de se lembrar...

"Os homens do teu planeta, disse o principezinho, cultivam cinco mil rosas num mesmo jardim... e nunca encontram o que procuram... E no entanto, o que eles buscam poderia ser achado numa só rosa, ou num pouquinho d'água...Mas os olhos são cegos. É preciso buscar com o coração..."

Antoine De Saint- Exupéry


[Tento sempre não me esquecer. Mas às vezes...]

12 março 2007

Cântico Negro

[…]
Ide! Tendes estradas,

Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,

Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

José Régio


[Porque me sinto assim. Sem saber qual o caminho acertado.]

09 março 2007

Variação sobre Rosas

[…]
Tu, que me ensinas o que é o
amor, colheste essas rosas selvagens: a sua
púrpura brilha no teu rosto. O seu perfume
corre-te pelo peito, derrama-se no estuário
do ventre, sobe até aos cabelos que se soltam
por entre a brisa dos murmúrios. Roubo aos teus
lábios as suas pétalas.

E se essas rosas não murcham, com
o tempo, é porque o amor as alimenta.

Nuno Júdice

[Para a J. que idolatra o Sr. supra referido, assim como a palavra "púrpura" (que a mim faz-me cócegas no céu da boca), este é para ti! Ah, é verdade. Vamos ter que subornar o Nelsito antes que ele venda as nossas fotos!]

08 março 2007

amar

Buscar amor – e achar sempre máscaras
as malditas máscaras, e ter de quebrá-las!

Friedrich Nietzsche

07 março 2007


06 março 2007

Ilha

Deitada és uma ilha E raramente
surgem ilhas no mar tão alongadas
com tão prometedoras enseadas
um só bosque no meio florescente

promontórios a pique e de repente
na luz de duas gémeas madrugadas
o fulgor das colinas acordadas
o pasmo da planície adolescente

Deitada és uma ilha Que percorro
descobrindo-lhe as zonas mais sombrias
Mas nem sabes se grito por socorro

ou se te mostro só que me inebrias
Amiga amor amante amada eu morro
da vida que me dás todos os dias

David Mourão-Ferreira

05 março 2007

vertigem

If the doors of perception were cleansed
everything would appear to man as it is,
infinite.

William Blake


as tuas mãos como dois peixes no meu corpo
o olhar que se escapa por entre a noite
as palavras atiradas ao acaso
novos sentidos reanimados dentro de mim
um nó na garganta ao toque
dos dedos entrelaçados em segredo

a luz que fluía do abraço
que me arrancou paz sei lá de onde
a surpresa de me sentir leve, flutuante
a tua voz espalhada nos meus cabelos
o álcool baralhado nos olhos tímidos

um dia inteiro que não cabe no calendário
a pele cor de riso e de verão
aquele mar que me inunda o espírito

o cansaço como hipnose em nossos olhos
que se fecham para avistar mais longe
a vertigem de um despertar sem nódoas
o fogo que saía dos nossos dedos...


ariana

02 março 2007

para viver

Quando um coração se fecha,
faz muito mais barulho do que uma porta.

António Lobo Antunes