31 outubro 2006

memória


momentos há que se engavetam na memória
em película aderente, e se armazenam durante anos
até que um dia se lembram de os desembrulhar
para lhes remover a poeira e o húmido limo e
se pasmam do que foram e porque o foram

decidi não empacotar absolutamente nada.
sou simplesmente o que sou e vivo comigo
sem falsos arrependimentos ou lívidos porquês

habito cordialmente com todas as lembranças,
mesmo aquelas que no seu tempo certo
me encheram de sal os lábios ressequidos

vivo sem medo dos fantasmas
porque lhes dou a mão
nas noites de insónia e de prazer

gritar às estrelas

30 outubro 2006

noite

Anoiteceu.
Amanheces com a denúncia do fogo que atiçamos.
Café e torradas que arrefecem esquecidos.
Baralhamos os braços. Confundimos as pernas.
Um gato entrou pelo postigo e ficou a dormitar ao fundo da cama. A cera das velas na mesa de mármore. A chuva miudinha a cair lá fora. Tu e eu. Nada mais importa.
O cansaço a desafiar-nos o sono. A visão aguçada microscopicamente.
Analiso-te poro a poro sem te decifrar.


Ainda bem.
Dá-te assim. Devagarinho aos meus silêncios.

29 outubro 2006

o caminho das pedras

Confesso que falar comigo nem sempre foi fácil. Foi - tal como o nome deste meu blog - o exorcismo ao silêncio. Ou exorcismos, se quiser ser precisa.

Olharmo-nos por dentro não é a tarefa mais imediata do mundo. Exige persistência. Virarmo-nos do avesso, filtrarmos as memórias que provocam insónias ou verrumar as minúsculas cicatrizes que nos enchem de porquês é um exercício com múltiplas soluções, mas apenas com um caminho: o caminho das pedras.

saber amar

Amar outro ser humano é talvez a tarefa mais difícil que a nós foi confiada, a tarefa definitiva, a prova e o teste finais, a obra para a qual todas as outras não passam de mera preparação.
Ranier Maria Rilke

28 outubro 2006

esfinge

Há sempre uma noite terrível para quem se despede do esquecimento.
Para quem sai, ainda louco de sono, do meio de silêncio.

Herberto Helder

quando a lua espiou o olhar extraviado na redoma da noite
no encalço das vozes perdidas onde se adivinha o palpitar do mel
e dos gritos amordaçados que denunciam todos os gumes de silêncio,
evadi-me da máscara para remover a película que me camuflava os medos.

azul filtrante

se hoje te encontrar na madrugada
não finjas com o olhar de quem pressente
nódoas de sangue nas minhas mãos,
as páginas arrancadas deste livro
inventado de pretéritos imperfeitos

se hoje te encontrar na negra opacidade
de um coração sem fios
de um madrigal sem gemidos
abraça-me com toda a fúria das entranhas
mas não me digas que me amas
porque as palavras são demasiado transparentes