27 abril 2016

O TEMPO CERTO


dizias que este era o tempo certo
o tempo justo do amor
que nos rebentava nas mãos
como granadas de sangue
e nos inebriava pela manhã
salvando-nos da morte

[ariana aragão]

© Todos os direitos reservados.
É expressa e incondicionalmente proibida a reprodução parcial ou integral sem a autorização prévia da autora.

22 março 2014

CLARIDADE

olhei-te nos teus olhos
e tudo me pareceu certo

a tua mão sobre a minha mão
e nada fora do seu curso

a tua boca rente à minha
e poderia morrer naquele instante


[ariana aragão]

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27 fevereiro 2014

DAS TRIPAS CORAÇÃO

viramo-nos do avesso, partimo-nos ao meio
baralhamos e tornamo-nos a dar

arrebatamos ondas, nas praias que achamos só nossas 
ébrios e loucos, vamos ao fim do mundo
apenas para saber a verdade sobre a palavra amor


[ariana aragão]

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26 julho 2013

ALEGRIA

há dentro de mim uma alegria infinita 
pela simples certeza de saber quem sou 

[ariana aragão]

12 fevereiro 2013

[will be]

15 dezembro 2012

[PRENÚNCIO]

Sonho contigo desde que nasci.
Minto. Sonho contigo muito antes de nascer.
Muito antes do mundo ser mundo.
Antes até de existir vida.
Amei-te antes de respirar pela primeira vez e 
amo-te todas as noites no preciso milésimo de segundo que antecede o adormecer.
[dizem que por vezes estremeço suavemente antes de adormecer]

Sonho sobretudo com o teu olhar que tudo diz
[muito mais que todas as palavras]
E com as tuas mãos que, sem nunca me terem tocado,
me tacteiam por fora e por dentro.

Hoje sonhei contigo mas não te vi.
[ainda não te consegui ver]
Um dia, quando nos cruzarmos
[nesse instante iluminado],
a vida ficará suspensa e eu saberei que és tu.

Saberemos os dois.

[Ariana Aragão]

06 maio 2012

[porque sou uma andorinha]

23 abril 2012

[a tua boca]

Toco a tua boca com um dedo, toco o contorno da tua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se, pela primeira vez, a tua boca entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que minha mão escolheu e desenha no teu rosto, uma boca eleita entre todas, com soberana liberdade, eleita por mim para desenhá-la com minha mão em teu rosto, e que, por um acaso, que não procuro compreender, coincide exatamente com a tua boca, que sorri debaixo daquela que minha mão desenha em ti. Olhas-me, olhas-me de perto, cada vez mais de perto, e então brincamos aos cíclopes, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos tornam-se maiores, aproximam-se uns dos outros, sobrepõe-se, e os cíclopes olham-se, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem, com um perfume antigo e um grande silêncio. Então as minhas mãos procuram afogar-se no teu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do teu cabelo, enquanto nos beijamos como se estivéssemos com a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragrância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto-te tremular contra mim, como uma lua na água.
[Julio Cortázar] 


19 abril 2012

[o meu Porto]

Minha cidade:

Já não sei há quantos anos gosto de ti, nem quando ganhei consciência deste amor, se é realmente amor este gostar de caminhar pelas tuas ruas, entre a ruína das tuas casas, e o prazer de passar o gomo dos dedos pela pele fria dos teus granitos, de olhar o rosto da melancólica sombra daquilo que podias ter sido se não te tivessem tratado com tamanha indiferença e tanta falta de atenção. Mas acho que gosto de ti mesmo assim, com todos os teus defeitos, as cãs do teu cabelo e as rugas de expressão que testemunham a vida cheia que tens tido, as festas e as alegrias, o teu corpo em azul e branco e perfumado de manjericos, mas também o interesse regular desses contabilistas do amor que só queriam o teu corpo, usar o teu corpo e passeá-lo pelos salões de festas, exibir-te como teus proprietários.

Envelheceste, Porto. Não és, nunca foste, uma cidade de amor fácil, nem oferecido. Nem sequer me olhas quando eu passo por ti e me comovo com as tuas curvas, com a sombra das tuas esquinas ou o fulgor da luz nas tuas janelas. Ignoras-me. Mas tens lá os teus humores, as tuas manias, e um orgulho tolo que te faz, às vezes, entregar-te ao primeiro cretino que te aparece à porta e te sussurra coisas parvas com falinhas mansas. Eu gosto de ti na mesma. Namoro-te às escondidas e nem precisas de saber que estou diante da tua janela à espera de te ver despertar sozinha, independente e nobre. Os outros podem ter ido embora, desistido de ti, podem ter-te trocado por outras urbes, pelos encantos cosmopolitas de certas europeias capitais, de tailleur e saltos altos, mas eu continuo aqui, minha tonta, à espera de te ver espreguiçar e pôr uma magnólia nos cabelos.



Quando, às vezes, me perguntavam porque gosto de ti, porque continuo a gostar de ti apesar de tudo e das nódoas negras do teu orgulho ferido, eu dizia-lhes que não há outra cidade como tu. Que há Paris e Londres, que há o Rio de Janeiro, sim, e Nova Iorque, e Praga, e Barcelona, e Salvador da Bahia e Veneza, tudo muito certo, são belas cidade e porque não?, mas que não há outra cidade como tu, espraiando-se sobre o rio, encavalitando-se nas suas margens, jogando às escondidas com os seus segredos, rindo-se quando há sol e recolhendo-se quando a chuva vem. Vista de um certo ângulo, a partir de Gaia, dizia-lhes, és uma das mais impressionantes paisagens urbanas do mundo. Creio que, por dentro, eles sorriam. Precisaram que uma companhia aérea com viagens de baixo custo para cá trouxesse os turistas que te haviam de cobiçar, precisavam que outros te namorassem para perceberem exactamente o que eu lhes dizia, que nenhuma das tuas nódoas negras, nem os macaquinhos da tua cabeça, são capazes de esconder aquilo que realmente és: incomparável flor do Douro, inculta e bela.

Gosto de ti, minha parola.

[Manuel Jorge Marmelo]

Foto: ariana luna, 1996, Cais da Ribeira [quando o centro histórico do Porto recebeu o título de "Património Mundial da Humanidade"]

10 abril 2012

[chuva]

‎[o que não for para mim que a chuva leve
 o que for para mim que o sol me traga



Existe apenas uma idade para sermos felizes, apenas uma época da vida de cada pessoa em que é possível sonhar, fazer planos e ter energia suficiente para os realizar apesar de todas as dificuldades e todos os obstáculos. Uma só idade para nos encantarmos com a vida para vivermos apaixonadamente e aproveitarmos tudo com toda a intensidade, sem medo nem culpa de sentir prazer. Fase dourada em que podemos criar e recriar a vida à nossa própria imagem e semelhança, vestirmo-nos de todas as cores, experimentar todos os sabores e entregarmo-nos a todos os amores sem preconceitos nem pudor.
Tempo de entusiasmo e coragem em que toda a disposição de tentar algo de novo e de novo quantas vezes for preciso. Essa idade tão fugaz na nossa vida chama-se presente e tem a duração do instante que passa...


[Mário Quintana]

02 abril 2012

[golden heart]

Se tens um coração de ferro, bom proveito.
O meu, fizeram-no de carne, e sangra todo dia.


[José Saramago]
 

29 março 2012

[amar]

Quanto mais envelhecia, quanto mais insípidas me pareciam as pequenas satisfações que a vida me dava, tanto mais claramente compreendia onde eu deveria procurar a fonte das alegrias da vida. Aprendi que ser amado não é nada, enquanto amar é tudo [...].
O dinheiro não era nada, o poder não era nada. Vi tanta gente que tinha dinheiro e poder, e mesmo assim era infeliz. A beleza não era nada. Vi homens e mulheres belos, infelizes, apesar de sua beleza. Também a saúde não contava tanto assim. Cada um tem a saúde que sente. Havia doentes cheios de vontade de viver e havia sadios que definhavam angustiados pelo medo de sofrer.


A felicidade é amor, só isto.
Feliz é quem sabe amar. Feliz é quem pode amar muito.
Mas amar e desejar não é a mesma coisa.
O amor é o desejo que atingiu a sabedoria.
O amor não quer possuir.
O amor quer somente amar.

[Hermann Hesse]



[existe felicidade maior do que fazer feliz quem se ama?]

21 março 2012

[poesia]

Desculpem-me a falta de modéstia;
Desculpem-me este brilho no olhar;
Desculpem-me o coração descompassado;
Desculpem-me a minha sensibilidade acutilante 

                      [não confundir com fragilidade];
Desculpem-me esta alegria que faz de mim quem sou;
Desculpem-me o meu romantismo exacerbado 

                       [não confundir com pieguice];
Desculpem-me esta visão subliminar do mundo;
Desculpem-me esta claridade nas palavras;
Desculpem-me se a paixão é o mote da minha vida;


[quando rio às gargalhadas, quando amo apaixonadamente, quando escrevo, quando leio os meus poetas, quando olho o mundo através da lente da minha leica, quando danço tango argentino, quando cozinho para quem gosto, quando projecto, quando partilho, quando me entrego]

19 março 2012

[há dias assim]

Há dias que se nos colam à pele como uma memória feliz e nos fazem acreditar que a tudo resistimos. Dias que são marcos bem definidos na cronologia da nossa existência. Dias que deitam por terra todas as teorias antes perfilhadas e abnegadamente defendidas. Dias que nos dão asas e sorrisos rasgados às escuras. Dias tão grandes que o peito é um lugar demasiado pequeno para o acolher. Dias infinitos de esperança e de crença inabalável num amanhã iluminado.


[recordo-me hoje de um dia assim]

15 março 2012

[...]

Concede-me, Senhor, serenidade necessária para aceitar as coisas que não posso modificar; coragem para modificar as que posso e sabedoria para distinguir umas das outras. 
Um dia de cada vez;

13 março 2012

[caligrafia]

quero escrever-te por dentro
desordenada e delicadamente
página a página, no teu corpo em branco

escrever-te devagarinho
desenhar palavras genuínas
no teu coração em banho-maria
destilando ternura a conta-gotas
nos espinhos crescidos no meu corpo

escrever-te no dialecto do querer
conjugar o verbo descobrir na tua pele e
saborear-te vagarosamente em cada frase


[ariana luna]


10 março 2012

[R]

No dia em que começou a Primavera desarmei-te o coração. Não sabia que o tinhas colado com fita-adesiva e que – apesar de acreditares incondicionalmente no amor – o preferias manter armadilhado.

Apareceste-me feita alegria e luz numa noite em que a lua – anunciavam – iria aparecer maior do que nunca.
Nesse dia, roía-te por dentro o orgulho por causa de um potencial amor que poderia ter sido mas que nunca o chegou a ser. Rias levemente ébria e feliz por sentires que tinhas fechado mais essa porta no teu peito e por teres amigos que eram como âncoras seguras no teu caminho.
Eu olhava-te discretamente sem nada saber de ti. Apenas olhava o teu sorriso de menina pequena e os teus olhos feitos de mar.
Olhava-te sem nada te poder dar. Tinha um espaço vazio no lugar do coração, à força de tanto o comprimir e amaldiçoar. Esmaguei-o nas longas noites de insónia e desespero e agora poderia olhar-te sem medo. Olhar qualquer mulher sem receio. Tinham-me incendiado o coração à queima-roupa um par de anos antes e agora, livre de tudo e sobretudo de mim mesmo, nenhum mal me poderiam fazer porque cá dentro não existia nada.
Por isso, abandonava-me a observava-te com os meus olhos muito negros e tristes sem que me notasses, sem que o nosso olhar se cruzasse.
Olhava-te e pensava que fazia tempo que nenhum olhar me prendia.
Surpreendeu-me pensar nisso e fez-me sorrir por dentro.

09 março 2012

[coração]

Não tenho coração.

Tenho apenas um buraco onde antes ele batia.
Procuro-o sentir, pousando a minha mão direita sobre ele e nada. 
Não sinto nada. Somente uma leve asfixia e um silêncio denso que escorre pelo meu peito abaixo.
Não tenho coração, segredo baixinho para mim mesma.
Quando nas noites de insónia ou trovoada encostava a minha cabeça ao teu peito e escutava o compasso do teu, sossegava e os meus olhos fechavam-se como num embalo.
O teu coração de menino pequeno segredava-me todos os medos, dúvidas e receios e eu, escutava pacientemente, com a certeza que o meu amor infinito um dia quebraria o feitiço.

[pena que nunca tivesses aninhado a tua cabeça no meu peito e escutado os segredos do meu coração transparente, feito mel e claridade…]

07 março 2012

[hoje]

‎[querida avó, trocava o meu mundo inteiro por um abraço quentinho teu, cheio de amor infinito]

03 março 2012

[é tempo]

Há um momento na vida em que é preciso focalizar. Mudar de perspectiva. Parar para avançar. Não recusar o futuro. Não olhar para trás nem lamber as feridas. Não temer voltar a cair. Não correr meio mundo para nos encontrarmos, quando no fundo andamos a fugir de nós mesmos. Resgatar o mais visceral de nós, que outrora atiramos para o poço mais profundo.

Há um tempo para ultrapassar barreiras. Para nos libertarmos daquela bagagem de pequeninos nadas. Mudar de pele e abrir os olhos. Atravessar aquela ponte instável sem olhar para baixo. Tempo de seguir em frente, sem lamentações, nem saudade, sem planos, sem aquele nó no estômago. Tempo de viver mais devagar. Sem a sofreguidão de todos os dias.

É tempo de dissecar cada pedaço para depois os juntar. 

Limpos e inteiros. Tempo de me abandonar nas coisas mais simples e essenciais. Não pedir desculpa por querer menos que tudo. 
É tempo.

[ariana luna] 


Foto: Jeff Zoet

13 abril 2011

[e a vida altera-se num ápice...]

08 fevereiro 2011

[esperar]


A esperança e a ilusão são provas do coração. Valem por si. Feliz de quem tem a coragem e imaginação suficientes para se iludir. Raios partam a cobardia vigente de quem tem tanto medo de se desiludir que se coíbe, logo à partida, de acreditar no que não esteja comprovado. Como no amor: corre-se o risco de falhar, de tudo perder, de sofrer. Mas que importa isso… se corre-se o risco de tudo conseguir ganhar?
[Miguel Esteves Cardoso]

09 dezembro 2010

[alma gémea]

As pessoas pensam que uma alma gémea é o seu encaixe perfeito, e é isso que toda a gente quer. Mas uma verdadeira alma gémea é um espelho, é a pessoa que te mostra tudo aquilo que te prende, a pessoa que te chama a atenção para que possas mudar a tua vida. Uma verdadeira alma gémea é, provavelmente, a pessoa mais importante que alguma vez conhecerás porque irá derrubar os teus muros e despertar-te à força. Mas viver com uma alma gémea para sempre? Não. Demasiado doloroso. As almas gémeas entram na nossa vida apenas para nos revelar outras camadas de nós próprios, e depois vão embora.


[do filme "Eat, Pray, Love"]

28 outubro 2010

[e vão 4]

24 outubro 2010

[se puderes]

Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.

Miguel Torga

14 outubro 2010

[queria]

Sabes o que eu queria?

Que me tirasses as palavras, o chão, o norte. Que me agarrasses por dentro e me virasses do avesso. Que me calasses com a tua boca e me embriagasses de amor.

[deixei de sentir e isso é que me tira o sono]

10 outubro 2010

[lugar de imperfeição]

Terror de te amar num sítio tao frágil como o mundo
Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.

Sophia de Mello Breyner Andresen


20 setembro 2010

[as tuas mãos]

As mãos pressentem a leveza rubra do lume
repetem gestos semelhantes a corolas de flores
voos de pássaro ferido no marulho da alba
ou ficam assim azuis
queimadas pela secular idade desta luz
encalhada como um barco nos confins do olhar

ergues de novo as cansadas e sábias mãos
tocas o vazio de muitos dias sem desejo e
o amargor húmido das noites e tanta ignorância
tanto ouro sonhado sobre a pele tanta treva
quase nada


Al Berto

13 setembro 2010

[gosto]

gosto de viajar sem destino. gosto de livros. gosto de fotografar com a minha M6. gosto de gatos. gosto de abraços imprevistos. gosto de correr na minha praia entre o nevoeiro. gosto de escrever em moleskines. gosto de banhos demorados. gosto de [fazer] designgosto de aprender. gosto de chás, mantas e o vento frio a bater-me no rosto no Inverno. gosto de frutos vermelhos [em especial de cerejas]. gosto de cozinhar e inventar novos pratos. gosto de aprender. gosto de jantares com amigos. gosto de balões de ar quente. gosto de nadar nua no mar alto. gosto do murmurar do mar ao fim da tarde. gosto de barba por fazer. gosto de faróis. gosto que me surpreendam. gosto de ouvir contrabaixo. gosto de poemas simples que me façam estremecer. gosto de cinema. gosto de rir à gargalhada debaixo dos lençóis. gosto de pequenos-almoços tardios. gosto da verdade [sempre]. gosto de papoilas, girassóis e buganvílias. gosto de conversar horas a fio com quem sei que me compreendegosto de escutar música ao vivo. gosto de lareiras acesas. gosto do cheiro a terra molhada. gosto de sonhar com a minha avó. gosto de pessoas simples e descomplicadas. gosto de andar descalça. gosto de sorrisos francos e olhares transparentes. gosto da sensação de querer eternizar um momento. gosto de praticar hatha yoga. gosto de manhãs luminosas. gosto de cartas escritas à mão. gosto do céu salpicado de estrelas. gosto de caminhar em cidades desconhecidas. gosto de mãos. gosto de dançar. gosto do conforto de um silêncio partilhado. gosto de janelas coloridas em casas antigas. gosto de adormecer abraçada. gosto de experimentar novos sabores. gosto de mimar as pessoas que amo. gosto de gelados. gosto do riso das crianças a brincar. gosto de óculos de sol. gosto de me sentir arrebatada. gosto de plantar e colher ervas aromáticas. gosto do delicioso cansaço quando regresso do ginásio. gosto de teatro com bons textos. gosto de me desafiar. gosto de ensinar. gosto de reencontrar amigos. gosto de relâmpagos. gosto de desenhar a carvão e pintar aguarela. gosto de chocolate preto. gosto das pequenas cumplicidades. gosto de me perder e descobrir caminhos novos. gosto de ver o pôr-do-sol em esplanadas tranquilas. gosto [sobretudo] de viver.

10 setembro 2010

[saudade]

Espero que tu te voltes para que o meu deslumbramento se imobiliza sobre o teu corpo em movimento, o teu sorriso infinito, desesperadamente infinito como o azul do céu. Vejo-te mas não te conheço ainda, quero conhecer-te mas não sei que palavras inventar para te puxar para a minha vida. […] Junto de ti descobri, de repente, a alegria que trazia escondida numa cave do coração. Deixei de ter caves e sótãos dentro de mim, corredores escuros onde o vento do medo uivava. […] Quantos quilos de amor tens ainda para me dar, diz-me? Quantos quilómetros teremos ainda de andar para nos amarmos só com riso, sem lágrimas nem culpas como dantes?

Inês Pedrosa in Fica comigo esta noite



[deviantART]

05 setembro 2010

[memória]

Gostava que assim fosse, mas não podemos suspender no tempo um instante precioso e fazê-lo perdurar incólume na esfera dos dias. Todos os dias recuamos mais um passo. Todos os dias te afastas de mim. Todos os dias me despeço de ti. Até que um dia deixarei de ter rosto, voz ou significado e tu serás uma sombra ténue duma memória arrancada a ferros num tempo longínquo. [Todos os dias.] Restarão as palavras, as fotografias gastas e a planos esboçados em segredo de um futuro que nunca aconteceu.


[deviantART - manipulada digitalmente]

31 agosto 2010

[desisto]

sabes, desisto de compreender. desisto de lutar contra mim. desisto de lutar contra ti. desisto de tentar não pensar. desisto de não querer. desisto de deixar de sonhar. desisto de te afastar da minha vida. desisto de tentar polir as palavras. desisto de fazer de conta que não me importo com tudo aquilo que me magoa. desisto de ser boazinha e politicamente correcta. desisto de me colocar sempre na última prioridade. desisto de pensar se não estarei a alucinar. desisto de querer saber o que vai aí dentro. só não desisto de nós. [apenas sei que este ainda não é o nosso tempo]

[falling]


[ariana luna] Lisboa, 2010

25 agosto 2010

[essência]

Tinham-lhe despedaçado o coração num dia tempestuoso de início de Primavera. Tinha prometido ferozmente que não o voltariam a fazer. Que o amor seria apenas o mote dos seus poemas e dos momentos aprisionados nas suas fotografias, mas jamais da sua vida. Juntou todos os pedaços do seu coração com fita-adesiva o melhor que soube e pode e arrepiou caminho numa vida frenética de muitos projectos e viagens.

Um dia, depois de muito tempo a caminhar ilesa, ele apareceu na sua vida. Da forma mais natural e discreta [não fosse ela notar os sinais e activar os alarmes de segurança] conheceu-o numa tarde luminosa num qualquer dia de verão numa praia há muito palmilhada numa roda de amigos. Nunca soube o que a encantou. Se o jeito de menino reguila, os olhos muito negros que a olhavam atentos quando ela falava, o porte altivo, seguro mas afável, o sentido de humor quase infantil ou a sua alegria contagiante.
Alguns meses e muitos encontros casuais depois, fizeram parte da vida um do outro. A descontracção, a atitude descomplicada com que abraçava a vida, o optimismo, a sensualidade típica do país latino onde nascera, a proximidade geográfica e a entrega e confiança que depositava na relação faziam dele um companheiro desejado.

Ele vivia em função dela. Era atento, romântico, sedutor e tranquilo. Ela [sem perceber porquê] viveu longos meses numa tristeza infinita. Um dia diz-lhe que não é a mulher certa para ele e que ele não era o homem certo para ela. Ele tinha tudo o que ela desejava num homem. Apenas não falavam a mesma linguagem e ela sabia claramente que ele nunca iria entender a sua verdadeira essência. O que a emocionava, o que lhe despertava os sentidos, o que lhe iluminava os lugares recônditos do seu coração despedaçado.

24 agosto 2010

[don't say anything and]


[Joel Meyerowitz, 1965]

21 agosto 2010

[agora]


[ariana luna]

19 agosto 2010

[pause]

não sinto nada. nada.
está tudo anestesiado
[recuso-me a pensar]


[getty images]

14 agosto 2010

[as noites]

há dias assim 
cheios de sol, mar azul e riso fácil 
em que me libertas de ti, mas
à noite dormes sempre comigo

[deviantART]

12 agosto 2010

[quase nada]

eu que não sei quase nada do mar
descobri que não sei nada de mim
Maria Bethânia


[deviantART]

09 agosto 2010

[gotan project]

[estiveste lá. O tempo todo. do meu lado.]

[ariana luna] 2 Agosto 2010

02 agosto 2010

[saudade]

Ontem andaste feito peixe enfurecido [cá dentro] contra todos os lugares de mim.
Apareces-me devagarinho, aproximas-te feito predador, com gestos calculados e olhar microscópico e invades-me com esta palavra sôfrega e temida.
Escondo-me, recuo, olho-te de frente e engano-te com monossílabos numa ginga estranha e confusa.
Não posso deixar que me voltes a fazer ir ao tapete, que te aproximes com palavras camufladas com tudo o que sabes que não tens para me dar.
Tenho que fechar todas as minhas portas [uma a uma] que abriste sem pedir licença.
Ontem ri livre e tranquila. Rodeada de amigos, de sol e mar azul. E de um peixe enfurecido que me recordou todo o dia esta palavra sôfrega e temida. [Saudade]

26 julho 2010

[black coffee]

um dia destes convido-te 
para um café à beira-mar 
[e sei que vais aceitar]


[Ellen Von Unwerth, para Lavazza, 2006]

[talvez por isso é que ainda não te convidei]

24 julho 2010

[sílaba a sílaba]

A palavra, como tu dizias, chega
húmida dos bosques: temos que semeá-la;
chega húmida da terra: temos que defendê-la;
chega com as andorinhas
que a beberam sílaba a sílaba na tua boca.

Cada palavra tua é um homem de pé;
cada palavra tua
faz do orvalho uma faca,
faz do ódio um vinho inocente
para bebermos contigo
no coração em redor do fogo.

Eugénio de Andrade


[deviantART]

22 julho 2010

[reencontro]

Amar-se a si mesmo é o início de um romance que dura até ao fim da vida.
Oscar Wilde


[Helmut Newton - pormenor]

[tinha-me perdido de mim. já me reencontrei.]

17 julho 2010

[o mundo inteiro]

Quis dar-te o mundo. [O meu mundo inteiro.] Levar-te pela mão e mostrar-te que a vida não é só isso que tu tens. É tudo o resto que estás a perder. [Tudo o que te falta conhecer.] Quis fazer-te sentir coisas que nunca antes tinhas sentido. [Quis sentir coisas que nunca antes tinha sentido.] Quis virar o mundo ao contrário. [Fazer do mundo uma casa pequena demais para nós os dois.] Conhecermos de mãos dadas mares, ilhas, casas, pessoas, países, sabores diferentes, emoções novas, prazeres intraduzíveis por palavras. Tive medo mas acreditei. Acreditei sempre que poderia soltar amarras e deixar-me flutuar à deriva. Que estarias lá. Para me abrigares nos teus braços e não me deixares afogar. Acreditei que o meu mundo te faria ser melhor. Te faria querer abrir os olhos. [Te faria deixar de ter medo de viver.] Que o meu mundo inteiro seria feito de luz e de nuvens e de poemas limpos e claros. Que te envolveria com palavras originais inventadas para nós e apenas para nós fariam sentido. [Acreditei que quando se quer e se gosta e se sente só a verdade é permitida.] 
Acreditei e esqueci-me de abrir os olhos.



[Quis dar-te o mundo. O meu mundo inteiro.]

16 julho 2010

[acordar]

[quando acordo, vejo o amor da minha vida]


[Chris Craymer]

[um dia. todos os dias. será assim.]

13 julho 2010

[combat]

ontem matei-te vezes sem conta
[hoje continuas a rutilar incandescente nas artérias]


[deviantART - pormenor]

11 julho 2010

[under your skin]

sei que estou aí
debaixo da tua pele

[é ainda melhor]

Apanhar sol numa praia linda, desfrutar da companhia de amigos sinceros e verdadeiros [daqueles que sabemos que estão lá, para o que der e vier], rir muito de coisas sérias, de disparates pegados e sobretudo de nós próprios. Assistir ao Festival de Curtas e ver trabalhos de extrema qualidade num local cheio de charme. Cuidar de mim em todos os sentidos como há muito tempo não fazia. Mimar quem gosto porque o mais importante da vida são as pessoas. 
[Tudo o resto é acessório.] 


É muito bom e faz ainda melhor.



[deviantART - pormenor]

10 julho 2010

[é bom]

Sair dos dias. Não dormir. Não falar com ninguém. Ficar de fora do lá de fora. Ocupar o coração. À força. Ser como ele.

É muito bom e faz muito bem.

Espera-se um bocadinho e, pouco a pouco, ele começa a correr para dentro de nós, aflito por atenção. Traz as coisas que adiámos, em que não reparámos, que não tivemos tempo de cuidar. E primeiro vêm as mágoas. A felicidade que recusámos. Sem saber. Sempre sem saber. A tristeza que fugimos. Voltam. É muito bom e faz muito bem.

Sair de nós. Cair nos outros. Não escrever. Ler. Não pensar. Lembrar. Os amigos quietos. O murmúrio do riso que riram. A família parada. O colo onde cabe a cabeça. O amor adormecido. Estas coisas acordam. E sossega saber que nós não somos nada sem eles. E mesmo com eles, quase nada. Escravos de carinhos somos nós, seguindo atrás, de braços abertos, numa fila sem fim.

É muito bom e faz muito bem.

Sair dos trabalhos, do dinheiro, das palavras que nada querem ou conseguem dizer. Fazer gazeta. Faltar. Desobedecer. É um trabalho também. Não ir. Não responder. Não entregar. É cumprir também. Desmergulhar. Desfazer. Desacontecer. São tarefas também. Ainda mas difíceis, talvez.

É muito bom e faz muito bem.

Sair da ordem. Cair na doçura do acaso. Trocar de caos. Descer. Vestir a mesma roupa. Não fazer a barba. Beber. Fumar. Sem pausa. Sem razão. Ceder. Emergir. Abandalhar. Fazer o que não se está a fazer. Esticar a corda. Não atender. Desarrumar os livros. Passear pela casa como se fosse uma cidade destruída. Estragar.

É muito bom e faz muito bem.

Sair da vontade. Cair na estupidez. Não descansar. Ver televisão numa língua que não se compreende. Forçar. Esquecer.

Fazer o que não apetece fazer. Contrariar. Confundir. Comer atum de conserva com uma colher. Pôr o despertador para tocar mal se comece a adormecer. Dizer disparates em voz alta."Todos agora". Virar o bico ao pego. Arrepiar. Arrepender.

É muito bom e faz muito bem.

Sair do corpo. Cair na alma. De chapão. Sem ver nada à frente. Receber os mistérios. Sem cerimónias. Sem compreender. Ser absorvido. Subjugado. E agradecer. Perder o norte, o fio, os sentidos. E gostar. Divertir. Desprender. Chafurdar na lama. Acriançar. Rir. Começar a chorar. Ser levado, enlevado, enganado, desprotegido, confuso, cruel. Desviado.

É muito bom e faz muito bem.

Sair da vida. Cair na morte. Sofrer. Iludir. Acabar. Permanecer na cama. Pensar em tudo o que se faz como se fosse a última vez. Esmorecer. Querer voltar atrás e fingir que já não se pode. Confessar. Pedir. Esvaziar. Ter pena de quem se foi e do que se fez. Rejeitar o perdão, a redenção, a última oportunidade.

É muito bom e faz muito bem.

É tão bom e faz tanto bem que, às vezes, cada vez mais, não apetece regressar. Tanto que só nos resta levantarmo-nos de onde caímos e, deixando-nos conduzir por tudo o que nos tolheu os passos desde o dia em que começámos a errar, na contramão das nossas almas, só nos resta procurar um sítio onde a nossa ida não se reconhece, não se aceita, não faz sentido, e entrar.

Entrar aqui. Daqui de onde nunca se sai. E ficar.

Miguel Esteves Cardoso

08 julho 2010

[determinação]

Quando não se sabe para onde se vai, nunca se vai muito longe. [Goethe]

Uma das características que mais me seduz é a determinação. É indubitavelmente uma das virtudes que mais define a personalidade e distingue a capacidade de arrepiar caminho ou permanecer inerte à espera do sol-posto.
Seja pela alegria entusiasta de viver, pela firmeza inabalável de carácter ou pela perseguição estóica de um sonho, a determinação guia-nos sempre em direcção aos nossos objectivos, ao nosso ponto B.

Cometemos erros, caímos inúmeras vezes, mudamos de vontades, trocamos de percurso, seguimos outro trilho mais íngreme mas mais desafiante, sofremos, desesperamos, rimos de nós próprios, porque sabemos que chegaremos lá. Porque cada passo encurta a distância, cada gota de suor relembra-nos a meta, cada experiência diminui as possibilidades de equívoco.

Enganei-me algumas vezes, fui crédula outras tantas, tive medos desnecessários, estatelei-me ao comprido, levantei-me a seguir mais forte e nunca por um momento deixei de saber quem era e o que queria fazer com a vida que tenho.




[Fez um ano que uma amiga de longa data morreu. Era pouco mais velha que eu e nunca a vi perseguir nenhum sonho. Vivia uma vida enfadonha, num emprego que a entediava e nunca lutou por nada que a fizesse sentir viva. 

Morreu asfixiada num ataque de epilepsia. A meu ver, já tinha morrido muitos anos antes.]

06 julho 2010

[because]

05 julho 2010

[petit-fours]

Se alguém liga a dizer "Estás no atelier? Vou passar aí para te levar um doce!" e te oferecem macarrons feitos pelo próprio para saborear com o café, o dia tem [definitivamente] outro sabor.

03 julho 2010

[açúcar queimado]

com teu sabor de açúcar queimado em redor da noite
sonhar perto do coração que não sabe como tocar-te

Al Berto, in Salsugem


[deviantART - pormenor]

[eclipse]

Sentados sobre as camas de ferro dos seus quartos, lembraram-se: 
encontrámo-nos. Naquele dia, perante a imagem verdadeira um do outro, sentiram: encontrámo-nos.
No rosto dele, a esperança. No rosto dela, mais do que a esperança. Encontramo-nos. Encontrámo-nos. Encontraram-se. Foi ele que caminhou a distância pequena que ainda os separava. Foi ele que estendeu os braços. Ela baixou o olhar entre o seu corpo imóvel e a terra. Os braços dele sem uso. As palavras formaram-se dentro dela. As palavras aproximaram-se dos seus lábios. No silêncio, entre os seus rostos, as palavras existiram e foram um eclipse.

José Luís Peixoto, in Antídoto



[deviantART]

01 julho 2010

[dna]

Queridos Pais,
Agradeço sobremaneira o empenho demonstrado aquando da minha concepção, mas terem-me feito inteligente, com sentido de humor e imaginação, na conjuntura actual que atravesso não abona de todo a meu favor. Há quem considere esse trio deveras assustador e a menina aqui fica mingau.

desta filha que vos adora,
ariana


[deviantART - pormenor]

[aceita-se]

aceita-se gato azul da rússia


[Oferece-me mimos, ronron até horas tardias, festas por todo o corpo, massagens, banhos prolongados à temperatura certa, ter o prazer de ficar enroscado em mim no sofá, andorinhas na varanda e jantares gourmet]

30 junho 2010

[sentido]

Há dias em que nada me faz sentido.
[nem este sol radiante. menos ainda o meu coração apertado.]


[deviantART]

29 junho 2010

[um dia]

28 junho 2010

[secret place]