Segunda-feira, 18 de Agosto de 2008

profecia

esta madrugada perfilhei as pisadas
que me deixaste na memória
persegui-lhes o trilho que me escavaste no ventre
para amansar as palavras na certeza de um puro despertar


[ariana luna]

[Getty Images]

[para escutar sob um céu azul índigo, salpicado de estrelas]

Quinta-feira, 31 de Julho de 2008

tentação

Resiste a tudo menos à tentação.

Oscar Wilde

Terça-feira, 29 de Julho de 2008

myself

[tenho saudades minhas]


[ariana luna] 2007

[muitas. tantas...]

Quarta-feira, 23 de Julho de 2008

desejo

Chegaste. Eu não te esperava. Contigo trouxeste a ternura, o desejo e, mais tarde, o medo. Chegaste e eu não conhecia essa ternura, esse desejo. Em casa, no meu quarto, neste quarto, revi os teus olhos na memória, a ternura, o desejo. E, depois, aquilo que eu sabia, o medo. E passou tempo. Eu e tu sentimos esse tempo a passar mas, quando nos encontrámos de novo, soubemos que não nos tínhamos separado.

José Luís Peixoto, in Antídoto

[Getty Images]espaço

[para escutar nas noites mais iluminadas que os dias]

Terça-feira, 22 de Julho de 2008

um passo de cada vez

[ariana luna] Paraíso Secreto algures no Norte, 2008

[para escutar a saborear o marulhar das ondas]

Sexta-feira, 18 de Julho de 2008

o mar no coração

Acendo um cigarro e falo com o meu coração:
Esta noite tive um sonho; conheci um homem que tinha o mar no lugar do coração, e quando sentia o seu corpo contra o meu, ouvia lá fora a fúria do mar.

Al Berto


[ariana luna] Paraíso Secreto algures no Norte, 2008

Quarta-feira, 16 de Julho de 2008

ainda sou do tempo...

[Capri-Sonne, quem se lembra? Uma das gulodices da minha meninice. Ontem fui presenteada com todos os sabores, para matar saudades de uma infância muito feliz.]

Terça-feira, 15 de Julho de 2008

silenciosamente

[Getty Images]

[para escutar com o precioso silêncio do mar]

Sexta-feira, 11 de Julho de 2008

chuvinha da boa

Basta eu referir despreocupadamente que conto os dias por sol e preguiça e lá começa a cair [aqui no Porto, pelo menos] sorridente chuvinha da boa, todo o santo fim-de-semana. Daquela que molha e que impede [a maioria das pessoas] de ir à praia e gozar os prazeres do sol.

[Getty Images - manipulada digitalmente]

[Ei, tu aí em cima?! Que sentido de humor inoportuno!...]

Quinta-feira, 10 de Julho de 2008

preguiça

sol e preguiça [é só disto que eu preciso]

[Getty Images]

Terça-feira, 8 de Julho de 2008

gula

Amanhã inicio-me como aprendiza nas artes culinárias com quem percebe muito do assunto.

[Getty Images]

[Suspeito que vou adorar.]

Quinta-feira, 3 de Julho de 2008

morder-te o coração

Não tenho coração, pensava nas noites em que ficávamos a olhar o reflexo da lua no Atlântico.
Tu contavas a história do duende prateado que tem de acender as luzes todas do mar da tranquilidade. Ele que prometeu ao Sol que pode dormir sossegado. Haverá sempre uma luz para espantar as coisas más.
Quando me fui embora, não deixei morada.
Hoje, quero que saibas que não te disse nada e que quando te pedi para me morderes o coração era só para me certificar de que ele existia no meu peito. Tu preferiste beijar-me, nunca me mordeste e, assim, fiquei sem saber.
[…]
Como num filme vi o teu corpo desintegrar-se, em pedaços, cinzentos como o teu casaco, frágeis como o teu lugar neste sítio, silenciosos como a minha memória da tua voz.
Morder-te o coração, o teu coração incompleto. Sim, ainda tenho um pedaço pendurado, visceral, animal, um pedaço teu misturado com a minha saliva, com a minha ideia de satisfação, de saciar a fome do mundo.
Quando disser o teu nome
Maria


Patrícia Reis, in Morder-te o coração


[DeviantArt - manipulado digitalmente]

Quarta-feira, 2 de Julho de 2008

atitude #2

[ariana luna]

Terça-feira, 1 de Julho de 2008

calorias

As calorias são pequenos animais que moram nos roupeiros e que durante a noite apertam a roupa das pessoas.

[Getty Images]

[Quero lá saber! Apetece-me tanto um gelado…]

punhal na carne

Arrebatados, capturados por uma imagem, apenas uma imagem, uma simples imagem que os deixava expostos e indefesos. Os encontros, a exploração embriagada da perfeição, a adequação inesperada do objecto de desejo, a doçura do começo, o tempo próprio do idílio. Delírios, desejos, esperanças, fantasias, sonhos, sofrimentos, feridas, angústias, ressentimentos, desesperos. A paisagem destruída de um casal depois da fúria devastadora da paixão.

[Imagem da peça "Punhal na Carne"] Teatro do Campo Alegre, Junho 2008
Texto Original "Como Um Punhal nas Carnes", de Maurício Kartun
Adaptação e Encenação de Júnior Sampaio
Interpretação de Clara Nogueira e José Fragoso

[Fragmentos de uma intensidade feroz revelados com o desejo à flor da pele.]

Sexta-feira, 27 de Junho de 2008

fundo do mar

Quero ver
o fundo do mar

esse lugar
de onde se desprendem as ondas

e se arrancam
os olhos aos corais
e onde a morte beija
o lívido rosto dos afogados

Quero ver
esse lugar
onde se não vê

para que
sem disfarce
a minha luz se revele
e nesse mundo
descubra a que mundo pertenço


Mia Couto


[Getty Images]

[Um dia descobrirei todos os mistérios das águas de todos os mares. As cores únicas, a luz sublime reflectida na água, a admirar extasiada todos os seres, numa dança lenta…]

Quinta-feira, 26 de Junho de 2008

cave

Duas pessoas são duas pessoas. Nunca nos pomos a pensar nisto assim, mas é inultrapassável. Queremos sempre acreditar que um casal, por exemplo, são duas pessoas que se escolheram um ao outro para partilharem. Para viverem como cúmplices. E isso até pode acontecer muito tempo, numa data de coisas.
Mas há sempre uma cave dentro de nós. Nunca, mas nunca mesmo, saberemos tudo acerca do outro. Só não percebo porque me faz isso sofrer se parece que estou a concluir que é natural, que as coisas são mesmo assim.
[…]
Ouviste cave e achas adequado, mas poderia ter dito gruta, caverna escura, essas catacumbas de que não abrimos mão, que encerramos a sete mil chaves que engolimos.
Quem és tu que viveste comigo.
Que guardavas tu nessa cave. Como foi possível tocarmo-nos sem nos revelarmos.


Rodrigo Guedes de Carvalho, in Canário

Quarta-feira, 25 de Junho de 2008

atitude

[ariana luna] Pavilhão Chinês, Lisboa, Maio 2008

[A nossa evolução depende, em grande parte, da nossa atitude perante a vida. Ela é curta demais para que cruzemos os braços, lamentemos as perdas, acarinhemos os medos, afastemos os sonhos ou soframos antecipadamente com os problemas que o futuro ainda nos colocará no caminho para nos desafiar uma vez mais.]

Sexta-feira, 20 de Junho de 2008

a sangue e fogo

Não te quero senão porque te quero,
e de querer-te a não te querer chego,
e de esperar-te quando não te espero,
passa o meu coração do frio ao fogo.
Quero-te só porque a ti te quero,
Odeio-te sem fim e odiando te rogo,
e a medida do meu amor viajante,
é não te ver e amar-te,
como um cego.


Talvez consumirá a luz de Janeiro,
seu raio cruel meu coração inteiro,
roubando-me a chave do sossego,
nesta história só eu me morro,
e morrerei de amor porque te quero,
porque te quero amor,
a sangue e fogo.


Pablo Neruda


[ariana luna] Janeiro 2008

Quarta-feira, 18 de Junho de 2008

cactos

Gosto de cactos.

[São interessantes; têm formas ousadas e cores altivas; são aparentemente fortes e incrivelmente frágeis; não requerem muitos cuidados nem se deixam tocar.]

[ariana luna] Junho 2008, cacto Gymnocalcium

[Partilho este gosto com a minha tia A., que de tempos a tempos, encontra outro cacto ainda mais catita para me oferecer. Este foi o último.]

Terça-feira, 17 de Junho de 2008

tanto com tão pouco

Três dias no Porto, num hotel na Foz, com uma nesguinha de mar na janela. À noite, mesmo com as luzes do quarto apagadas, um halo de milagre sobre a cama, um dia mais secreto, mais íntimo, a modelar as coisas e os corpos. A claridade vinda não sei donde, da pele talvez, transfigurava tudo, as almofadas inchavam de luz, cada prega do lençol desfazia-se numa cadência de onda. O silêncio da rua que o silêncio da chuva, de tempos a tempos, aumentava, acrescentando palavras às vozes. Meu Deus, como com tão pouco se constrói o mundo. […]

António Lobo Antunes, in revista Visão [5 de Junho de 2008]

Sexta-feira, 13 de Junho de 2008

pensamento para Al Berto

agora que o teu corpo é só miragem
e fluis em cada verso construído,
não sei como falar-te.
talvez te encontre no
corredor de um pensamento

limado com a pureza inicial
de quem arranca da alma tudo que a contamina
para acolher somente o
riso, o desejo e o silêncio.

não sei como dizer-te
que te escutei noites a fio
nas páginas fluentes em delírios

ainda habitas todos aqueles que gozam
com o vento a açoitar a face
e lambem a chuva que se esvai do olhar.

não te direi adeus.
apenas te confio este poema
embrulhado num qualquer murmúrio...


[ariana luna]
13 de Junho de 1997

[Alinhavei este poema com minúsculos fios de lua no dia da tua morte.
Entrego-to hoje, 11 anos depois.
No dia em que Al Berto morreu – num dia quente de 13 de Junho – o mundo ficou irremediavelmente mais pobre e mais cinzento. Bebi-lhe as palavras em tragos largos durante toda a minha adolescência, pedindo sempre mais. Senti que tinha perdido um irmão e chorei o seu silêncio, a sua morte e a sua irremediável ausência. Mesmo sem nunca o ter conhecido.]

Quinta-feira, 12 de Junho de 2008

imprevisibilidade

Nunca são as coisas mais simples que aparecem quando as esperamos. O que é mais simples, como o amor, ou o mais evidente dos sorrisos, não se encontra no curso previsível da vida. Porém, se nos distraímos do calendário, ou se o acaso dos passos nos empurrou para fora do caminho habitual, então as coisas são outras. Nada do que se espera transforma o que somos se não for isso: um desvio no olhar; ou a mão que se demora no teu ombro, forçando uma aproximação dos lábios.

Nuno Júdice


[Getty Images]

Segunda-feira, 9 de Junho de 2008

inveja

Do lat. invidìa, significa o desejo de possuir algo que outra pessoa possui ou de usufruir de uma situação semelhante à de outrem; cobiça;

[Alegrarmo-nos com a felicidade e o sucesso dos outros significa não só crescimento interior, mas sobretudo uma paz de espírito e um olhar sereno e confiante perante a vida. Pelo contrário, a inveja – um dos sentimentos mais mesquinhos do ser humano – mostra somente pequenez de carácter. Sonhar os sonhos dos outros deve ser mesmo aborrecido…]

Domingo, 8 de Junho de 2008

fashion addicted

Nada é mais belo que um corpo nu. A roupa mais bonita para vestir uma mulher são os braços do homem que ela ama. Para as que não tiveram essa felicidade, eu aqui estou.

Yves Saint Laurent (1936-2008)

Sexta-feira, 6 de Junho de 2008

futebol versus sexo

Apesar da euforia e da colossal ilusão dos portugueses, adeptos fervorosos e incondicionais da sua selecção nacional (que já comemoram mesmo antes do campeonato começar), segundo um estudo (publicado pela Agência Lusa a 19 de Maio) realizado pelo Social Issues Research Centre em 17 países europeus (com o apoio em Portugal do Departamento de Sociologia da Universidade do Porto), 83% dos portugueses "troca um jogo de futebol por sexo".

Conhecemos tudo dos nossos jogadores. Onde moram, a família, a mulher platinada, a vizinha do lado, o cão e o piriquito, as roupas de marca, as casas pirosas, os carros com motores potentes e afins. No entanto, na hora do jogo (e apesar de, segundo o mesmo estudo, 73% considerar que o futebol "é uma religião" e 35% referir que é "a coisa mais importante da vida" ), quando todas as cartas são lançadas e os nossos heróis suam as estopinhas, se o instinto soa mais alto… existe sempre a repetição no telejornal para ver…

[Getty Images]


[Confesso que este estado febril, de selecção nacional ao pequeno-almoço, almoço, jantar e ceia estava a deixar-me preocupada, mas afinal somente 17% dos portugueses é que são parvos. Vá lá, podia ser pior…]

Quarta-feira, 4 de Junho de 2008

frozen moment

Sometimes love is hiding between the seconds of your life.*

* do filme CashBack, de Sean Ellis

Segunda-feira, 2 de Junho de 2008

fascínio

Sou fascinada desde sempre pelos Lenços dos Namorados. Designados também como "Lenços de Pedidos", eram o mote para a conquista do pretendente. As cores fortes, as palavras simples pejadas de erros ortográficos, os desenhos estilizados e mal amanhados, o enamoramento, a sedução subliminar, a simbologia romântica [com juras de amor eterno], campestre, náutica e religiosa, fazem destes pequenos lenços quadrados, peças de grande riqueza histórica do nosso país. Pensa-se que as origens desta tradição minhota remontam aos lenços senhoris dos sécs. XVII -XVIII, adaptados mais tarde pelas mulheres do povo, bordando-os com este aspecto característico.

Bai carta felis buando

Nas azas dum pasarinho
Cando bires o meu amor
Dale um avraso e um veijinho

Meu Manel bai pró Brasil
Eu tamen bou no Bapor
Gardada no coração
Daquele qué meu amor


[Não são um mimo?]

Sexta-feira, 30 de Maio de 2008

cerejas

Deliciada com tantas cerejas...
[com as melhores cerejas do mundo... as do Fundão...]


[Getty Images]

[A minha reclamação de ontem resultou. Depois de uma semana tempestuosa (no final de Maio?!?), hoje está um dia radiante com céu azul e um sol lindo!...]

Quinta-feira, 29 de Maio de 2008

quero sol

Ei, aí em cima!? Qual foi a parte de "quero sol" que não percebeste?

[tenho que te fazer um desenho ou
explicar-te como se tivesses 4 anos?]

[Getty Images]

Terça-feira, 27 de Maio de 2008

tango

Este ano vou aprender tango.
[ao som de Piazzolla... vou-me deixar levar...]

[Getty Images]

Domingo, 25 de Maio de 2008

cansaço

O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas
Essas e o que falta nelas eternamente
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço. […]
Um supremíssimo cansaço,
Íssimo, íssimo, íssimo,
Cansaço...

Álvaro de Campos


[Getty Images]

Quarta-feira, 21 de Maio de 2008

voar

Um dia destes levanto voo.
[qualquer dia destes... sem pressas...]

[Getty Images]

Segunda-feira, 19 de Maio de 2008

curvas

Não é o ângulo recto que me atrai.
Nem a linha recta, dura, inflexível,

criada pelo homem.

O que me atrai é a curva livre e sensual.
A curva que encontro nas montanhas

do meu país,
no curso sinuoso dos seus rios,
nas ondas do mar
nas nuvens do céu,

no corpo da mulher preferida.
De curvas é feito todo o universo.
O universo curvo de Einstein.


Oscar Niemeyer

[DeviantArt]

Sexta-feira, 16 de Maio de 2008

homens

Os homens são brutos e insensíveis. Matam mais criancinhas, portam-se pior à mesa, cospem e coçam-se mais. Os homens – e sobretudo os homens que gostam de mulheres – são menos inteligentes, menos delicados e menos civilizados que as mulheres. A única coisa que têm a favor deles, à parte de certas características discutíveis, como serem menos histéricos, é as mulheres gostarem deles.
Por que é que as mulheres gostam dos homens? Como lésbica que sou nunca entendi.

Miguel Esteves Cardoso


[Depois de uns dias com 3 cromos – daqueles de colecção, raros e com impressão metálica, onde o texto citado assenta como uma luva – começo a dar mais valor a alguns homens…]

Terça-feira, 13 de Maio de 2008

bonsai

Procuro um Bonsai.

[Ainda não descobri o meu bonsai, embora tenha apreciado num local mágico, dezenas destas pequenas árvores que me transportam para um jardim secreto, onde só cabem sonhos felizes…]

Domingo, 11 de Maio de 2008

blueberry kiss

Às vezes olhamos para as pessoas como um espelho. E esse reflexo faz com que gostemos mais de nós próprios. *

* do filme
My Blueberry Nights, de Wong Kar Wai

[the juicy kiss]

Quinta-feira, 8 de Maio de 2008

acordo ortográfico

Não vou falar das novas regras a serem implementadas a breve trecho, do meu desagrado por este delapidar da nossa cultura ou tampouco das inúmeras cedências de Portugal para fazer parte do rebanho.
Vou antes falar do meu amor pelo meu país e em especial pela minha língua, a expressão máxima de um povo.


Gosto da palavra desde que me conheço por gente.

Gosto-lhe da forma, da fonética, do seu desenho ondulante, da forma como o som brinca com a minha língua e como a minha respiração se altera para a pronunciar.
Não gosto de gíria, de calão, de palavras abreviadas para escrever no telemóvel ou no msn. De palavrinhas nem de palavrões. Amo demasiado a minha língua para o fazer.
Gosto de palavras novas e de palavras de sempre. De sotaques, de expressões idiomáticas e de cariz popular. De palavras com gente dentro.
Não gosto que falem mal da minha língua nem que me obriguem a falar uma outra no meu país.
Gosto de fazer amor com as palavras nos meus poemas. De as lamber e trincar. Devagarinho. Para lhes sentir o aroma e o sabor.


Não quero alterar a minha escrita.
Não me quero perder num mar de palavras cujo traçado vou desconhecer.
Não quero recear escrever incorrectamente e estar sempre em dúvida.
Não quero que me tirem a identidade. Não quero.


[ariana luna]

Quarta-feira, 7 de Maio de 2008

carta de amor

Adoro-te minha gata de Janeiro meu amor minha gazela meu miosótis minha estrela aldebaran minha amante minha Via Láctea minha filha minha mãe minha esposa minha margarida meu gerânio minha princesa aristocrática minha preta minha branca minha chinezinha minha Pauline Bonaparte minha história de fadas minha Ariana minha heroína de Racine minha ternura meu gosto de luar meu Paris minha fita de cor meu vício secreto minha torre de andorinhas três horas da manhã minha melancolia minha polpa de fruto meu diamante meu sol meu copo de água minhas escadinhas da Saudade minha morfina ópio cocaína minha ferida aberta minha extensão polar minha floresta meu fogo minha única alegria minha América e meu Brasil minha vela acesa minha candeia minha casa meu lugar habitável minha mesa posta minha toalha de linho minha cobra minha figura de andor meu anjo de Boticelli meu mar meu feriado meu domingo de Ramos meu Setembro de vindimas meu moinho no monte meu vento norte meu sábado à noite meu diário minha história de quadradinhos meu recife de Manuel Bandeira minha Pasargada meu templo grego minha colina meu verso de Höderlin meu gerânio meus olhos grandes de noite minha linda boca macia dupla como uma concha fechada meus seios suaves e carnudos meu enxuto ventre liso minhas pernas nervosas minhas unhas polidas meu longo pescoço vivo e ágil minhas palavras segredadas meu vaso etrusco minha sala de castelo espelhada meu jardim minha excitação de risos minha doce forquilha de coxas minha eterna adolescente minha pedra brunida meu pássaro no mais alto ramo da tarde meu voo de asas minha ânfora meu pão-de-ló minha estrada minha praia de Agosto minha luz caiada meu muro meu soluço de fonte meu lago minha Penélope meu jovem rio selvagem meu crepúsculo minha aurora entre ruínas minha Grécia minha maré cheia minha muralha contra as ondas meu véu de noiva minha cintura meu pequenino queixo zangado minha transparência de tules minha taça de oiro minha Ofélia meu lírio meu perfume de terra meu corpo gémeo meu navio de partir minha cidade meus dentes ferozmente brancos minhas mãos sombrias minha torre de Belém meu Nilo meu Ganges meu templo hindu minha areia entre os dedos minha aurora minha harpa meu arbusto de sons meu país minha ilha minha porta para o mar meu manjerico meu cravo de papel minha Madragoa minha morte de amor minha Ana Karénine minha lâmpada de Aladino minha mulher.

Lobo Antunes

[texto gentilmente enviado por este menino]

Terça-feira, 6 de Maio de 2008

prazeres

Foram dias de risos, amigos, viagens, encontros, cumplicidades, partilha, jantares de palhaçada, descoberta de novos lugares, maresia, reencontros, novos amigos, gargalhadas noite adentro, miradouro sobre as luzes ténues da cidade, noite quente na Baía, cantoria das músicas da nossa infância, chá de frutos da paixão, passeios em Sintra, museus repletos de memórias, ruas históricas, lojas com objectos irresistíveis, pequenos-almoços em cafés estranhamente simpáticos, esplanadas na marina, novos sabores, conversas até adormecer, andorinhas na varanda, 19 aviões pela madrugada, conversas sobre carros e mais carros, pequenos segredos, sorrisos e olhares que riam mais ainda,